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filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de filosofia e de criatividade, para crianças, jovens e adultos / formação para professores e educadores (CCPFC) / mediação da leitura e do diálogo / cafés filosóficos / #filocri

filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de filosofia e de criatividade, para crianças, jovens e adultos / formação para professores e educadores (CCPFC) / mediação da leitura e do diálogo / cafés filosóficos / #filocri

o que significa ficar de castigo?

- oficinas o poder do diálogo: filosofia visual no 1.º ciclo

joana rita sousa, 24.11.22

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📷 Cláudia Almendra - Ludo Biblioteca José Jorge Letria

Observa, joga e pensa: este é o convite que as oficinas “o poder do diálogo” lançam às crianças do 1.º Ciclo do Ensino Básico. A dinamização está a cargo de Joana Rita Sousa, filósofa, perguntóloga e mestre em filosofia para crianças.

Estas oficinas giram em torno das propostas da filosofia visual (Wonder Ponder), onde o trampolim para o diálogo são imagens com cenas que provocam o pensamento e o diálogo.  (via agenda 360 Cascais)

 

Cultura Cascais - oficinas nas Bibliotecas Municipais

 

a oficina de filosofia para / com crianças: Em que pensas tu?

joana rita sousa, 18.11.22

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🗓 no passado dia 12 de Novembro dinamizei uma oficina de filosofia dedicada ao tema do pensamento.

❓ o motivo? Novembro é mês de celebração do Dia Mundial da Filosofia e escolhi essa temática para as oficinas de filosofia (Platão e philoTEEN), bem como do #kitdedialogoFILOCRI

📚 fui buscar alguns livros à estante para me ajudar a preparar a oficina: Em que pensas tu?, Museu do Pensamento e A Casa das Perguntas. li e voltei a ler. iniciei um perguntário (inventário de perguntas) sobre o tema do pensamento. fiz um mind map com alguns conceitos e expressões. voltei a ler os livros. parei no Museu do Pensamento (Joana Bértholo)  e nalgumas perguntas deliciosas como esta: "Opinar" é uma forma de pensar e fazer o pino ao mesmo tempo?

👀 suspendi este trabalho para reunir com uma aluna do 10.º ano para a ajudar a orientar os estudos de filosofia. estivemos a falar de proposições, do quadrado da oposição e A, E, I e O. 

🚗 depois, fui buscar o carro à oficina, voltei a casa e ainda não tinha decidido o que iria propor na oficina do Platão. voltei a ler as minhas notas e deixei os pensamentos a "marinar". 

⏰ quando a oficina começou surgiu uma ideia: vamos brincar com frases (proposições) verdadeiras e falsas? vamos!

*

a filosofia exige preparação, planeamento e estudo e abertura ao improviso. é um pouco como o jazz, tal como defende Marina Santi neste artigo:

This paper is based on the content of the talk held at the ICPIC Conference in Madrid, titled “Improvising as a way of inquiring and inventing” in which the jazz metaphore for education and philosophy is introduced. The arguments proposed are adapted to respond also to some critical issues put forward by Gert Biesta in his paper about philosophical work with children and the related experience in schools through Philosophy for/with Children programmes.  My contribution to the discussion deals with two main focus. The first one is theoretical and considers improvisation as expression of human cognitive constructivism and form of adaptive/exaptive human agency in the environment. Improvisation is interpreted as a privileged form of “complex thinking”, in which the three components identified by Lipman - critical, creative and caring thinking - are integrated and mutually implemented. The second focus is pragmatic and proposes eight “jazz” doors to embody education in the dimension of improvisation, opening teaching to the authentic experience of changing implied in growing/aging, in which the stability of identities are always at risk. A jazzing way to Philosophy for/with Children is proposed as antydote to the risk of learnification of education and capitalization of human skills to which – according to Biesta – Philosophy for/with Children seems to be exposed in its school application, while proposing a jazz framework for a new “poor pedagogy”.

 

*

inscreva o seu filho / a sua filha numa das oficinas da filocriatividade: 

> oficina do Platão - O sentido da vida das moscas (online) - para crianças dos 7 aos 12 anos
10 de Dezembro, das 15h30 às 16h30 - inscrições AQUI

> oficina philoTEEN - O sentido da vida (online)
 - para jovens dos 13 aos 17 anos

10 de Dezembro, das 17h30 às 18h30 - inscrições AQUI

¿Hay alguien ahí?

joana rita sousa, 26.03.22

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é conhecida a minha admiração pelos materiais Wonder Ponder. a filosofia visual proposta por Ellen Duthie e Daniela Martagón veio ao encontro da minha prática de diálogo filosófico, uma vez que os recursos visuais (imagens, fotografias, livros ilustrados) foram desde o início uma das minhas opções no momento de escolher algo que servisse de pontapé de saída para o diálogo. 

parar.

¿Hay alguien ahí? convoca-nos a pensar na humanidade. já parámos para pensar na humanidade? o que faz de nós humanos? o que será que outros seres podem pensar sobre nós? 

observar e ler.

hum? como é possível os seres bíbopes terem tanto a dizer sobre os humanos? espera aí. e o que dizem é em forma de perguntas? perguntas e mais perguntas?

de que forma é que um conjunto de perguntas, um guião de perguntas muito perguntadeiras pode dizer TANTO sobre a humanidade? 

pensar, escutar e falar. 

este livro é perguntador, não fosse ele um conjunto de perguntas que parece não ter fim. convida a responder, a tentar sossegar o desassossego provocado pelas perguntas. podemos partilhar a leitura com outras pessoas e assim dialogar a partir das perguntas do livro, das respostas que queremos arriscar e de outras perguntas que as perguntas nos possam provocar.

arriscar perguntas, arriscar respostas. 

ainda há espaço para mais perguntas? sim.

há espaço para respostas? sim.

esse trabalho agora é connosco, os seres humanos que têm nas suas mãos o livro que é um preguntario interplanetario para terrícolas inteligentes. há que abrir o livro lançar as perguntas e as respostas. é bem possível que nos demoremos algum tempo em cada uma das páginas - e esse é um dos pontos que tanto aprecio nos materiais Wonder Ponder. são materiais egoístas, no sentido em que exigem a nossa total atenção ao detalhe e uma atitude nada apressada na leitura. definitivamente, este livro é um livro para pessoas sem pressa - e que podem ou não gosta de donuts 🍩 

*

👉 numa oficina de filosofia um livro (ou outro recurso) não faz o trabalho por nós, porém um livro como este ajuda muito a contemplar pontos de vista diferentes, a colocar em causa o que pensamentos, a criar um espaço de incerteza e a alimentar a curiosidade.

 

 

¿Hay alguien ahí? é um livro pensado para crianças a partir dos 9 anos (para leitura autónoma) e poderá ser lido por crianças de outras idades, com mediação de leitura.  

(também é altamente recomendado para pessoa adultas curiosas.) 

pretende juntar-se a um grupo de pessoas interessadas em trabalhar criatividade?

junte-se às comunidades criativas #filocri

joana rita sousa, 02.03.22

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👉 a quem se destinam as comunidades criativas #filocri?
a qualquer pessoa que tenha interesse para praticar criatividade. não importa a idade, a profissão ou até a localização geográfica - vamos encontrar-nos via zoom e isso permite acolher diferentes geografias.

pretende-se que seja uma comunidade intergeracional, por isso não há uma faixa etária no chamado público-alvo. o público são pessoas que estejam disponíveis para treinar criatividade com outras pessoas (conhecidas ou desconhecidas), que tenham acesso a um computador e internet.

a participação nas Comunidades Criativas [online] pode ser uma actividade desenvolvida em família - a minha única questão com a idade prende-se com a autonomia das crianças perante um computador. assim, diria que crianças a partir dos 7 anos poderão participar de forma autónoma e que crianças mais novas podem participar na companhia de uma pessoa adulta. 
 
 
ℹ️ próximos encontros: 
 
18 de março, sexta, das 21h às 22h15

 

informações AQUI

vamos falar sobre fins e começos

joana rita sousa, 24.01.22

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Home Talk (Diálogos em Casa) consiste num conjunto de actividades para parar e dialogar, em família ou na escola.
apresentamos propostas para pensar a partir de um tema, para as seguintes faixas etárias:
📌 3 / 5 anos,
📌 6 / 9 anos
📌 e dos 10 anos em diante
 
em inglês, espanhol e português
 
para aceder aos recursos, clique aqui

"fizemos errado" - e agora?

oficinas #filocri no jardim de infância

joana rita sousa, 15.12.21

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[visita ao jardim de infância]

a sala do balão 🎈 mágico continua a querer "fazer errado" e pronto... lá abrimos mais um daqueles livros do monstrinho azul que está sempre a pedir para não abrir o livro ou para não virar a página. 

na sala da 😍 amizade estivemos a experimentar um jogo sobre... a amizade. confesso, inventei o melhor jogo que consegui, porém as crianças querem ajudar a fazer um jogo melhor. assim, já temos tarefa para o próximo encontro. 

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se pretende que as oficinas #filocri viajem até à sua escola ou biblioteca escolar,

contacte-me através deste formulário

 

 

"foi errado abrir o livro?"

- investigações no jardim de infância

joana rita sousa, 10.11.21

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abrir ou não abrir o livro?

na oficina passada virámos todas as páginas do livro "Não abras este livro". houve todo um entusiasmo para descobrir cada uma das páginas.

hoje pensámos um pouco sobre o que fizemos. afinal, o livro diz lá "NÃO". e nós não respeitámos o não!  por que é que abrimos o livro?

💬 "foi errado abrir o livro", disse uma das crianças. porquê? 💬 "porque dizia lá que NÃO" e💬 "o monstrinho azul ficou num sapo". 

o virar das páginas mudou a vida do nosso amigo o monstrinho azul. não podemos voltar atrás. então e se a história continuar? 

"Não abras este livro outra vez" - e agora?  abrimos o livro amarelo? 

entre SINS e NÃOS, pedi às crianças para levantar o braço e escolher. as mesmas pessoas levantaram o braço no SIM e no NÃO. eu fiquei muito confusa e sem saber o que fazer.

💬 "nós queremos saber o que vai acontecer mas diz para não abrir"

💬 "mas nós queremos saber o que vai acontecer!"

💬 "abre, abre."

bom, e abrimos o livro. e a vida do nosso amigo monstrinho azul mudou de novo. e agora? 

 

 

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investigação: será que este livro fala de amizade? 

 

na sala de amizade o grupo tem estado a trabalhar o tema dos animais. assim, resolvi levar o livro "Os animais estavam zangados" para falar de amizade. bom, na verdade precisava da ajuda do grupo para compreender se tinha escolhido bem o livro para falar de amizade.

depois da partilha da história - que trouxe recordações da visita que as crianças fizeram recentemente ao jardim zoológico - partimos para a investigação: este livro fala da amizade? 

💬 "o livro não diz que é da amizade"

💬 "os animais também são amigos?"

💬 "o que é ser amigo de alguém?" 

ser amigo de alguém é 💬 "brincar" e 💬 "partilha coisas". também pode ser 💬 "conversar sobre aquilo que aconteceu". será que os animais têm conversas dessas?

💬 "sim, os flamingos do jardim zoológico estavam a conversar".

porém, o nome da história deixou-nos a pensar se seria mesmo uma história de amizade. afinal, estar zangado não "bate certo" com a ideia da amizade. 

💬 "os animais estavam zangados porque partiu-se a amizade"

 

*

pensar, escutar e falar (peter worley) 

regresso a Peter Worley e ao seu mais recente livro Corrupting Youth para lembrar que o triângulo pensar, escutar e falar constitui o movimento básico e essencial para que a filosofia e o diálogo filosófico possam acontecer. 

não é fácil praticar o pensar e escutar e falar, um de cada vez. por vezes entusiasmamo-nos muito e falamos por cima uns dos outros e não conseguimos escutar-nos. outras vezes pensamos, mas não conseguimos muito bem falar do que pensamos. escutar é quase uma arte, nos dias que correm, com tantos estímulos a captar a nossa atenção.

estas dificuldades não são exclusivas das crianças do jardim de infância, são até bastante comuns entre os adultos 

temos todo um ano lectivo pela frente para praticar o pensar, escutar e falar! 

 

*

se pretende que as oficinas #filocri viajem até à sua escola,

jardim de infância ou biblioteca escolar, contacte-me através deste formulário

 

 

diálogos em casa - propostas para pensar em família ou na escola

joana rita sousa, 13.10.21

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é com muito gosto que me junto à equipa Dialogue Works no projecto Home Talk.

o meu contributo passa por traduzir e adaptar as actividades que são partilhadas semanalmente, sobre um determinado tema. 

na semana passada o tópico foi falar e na presente semana pensamos sobre liberdade. 

espero que estes recursos possam proporcionar bons momentos de pensamento em família ou na sua sala de aula. 

 

Home Talk [EN] / Diálogos em casa [PT] / Diálogos en casa [ES]

para aceder aos recursos de forma gratuita clique AQUI

num diálogo filosófico não há respostas certas nem erradas

joana rita sousa, 26.08.21

 

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esta é uma afirmação que se repete com alguma frequência entre as pessoas que trabalham no âmbito do diálogo filosófico. eu própria já a terei proferido e tenho a noção que é uma frase apelativa e que convida todas as pessoas a arriscar respostas. porém, há problemas nesta afirmação - sobretudo se não houver um enquadramento para a mesma. 

 

da utilidade da filosofia

é comum reconhecer-se inutilidade à filosofia e por isso pensar que com ou sem ela tudo vai dar ao mesmo. o Alves Jana escreveu em tempos um artigo sobre a questão da utilidade da filosofia: 

Um dia, não há muito tempo, li a afirmação por um pseudo-filósofo (digo eu) de que “Não é possível ensinar a pensar, porque todos nós já pensamos”. Parece brilhante, perece uma verdade evidente, mas não é verdade.

É verdade que todos nós respiramos, andamos, falamos... mas precisamos de aprender a respirar, a andar, a falar... se formos para o teatro, se quisermos desfilar na passerelle, se precisarmos de falar em público. E todos nós temos emoções, naturalmente, mas a inteligência emocional permite-nos viver as emoções de um modo melhor – melhor para si e melhor para os outros.

Todos nós pensamos, mas também todos nós precisamos de melhorar a forma de pensar. E alguns precisam de melhorar muito, porque, bem vistas as coisas, não pensam, apenas dizem coisas que andam por aí pensadas por outros. E, na maioria das vezes, quando falam começam por dizer “Na minha opinião muito pessoal...” e depois mostram que não pensam, apenas reproduzem falas normalmente indigentes.

A filosofia é, entre outras disciplinas, um caminho para melhorar o modo de pensar. 

 

ao reler este texto do Jana recordo também os pais que não inscreveram os filhos na actividade de filosofia que se chamava "Aprender a Pensar", pois segundo eles os filhos já pensavam. porém, tal como diz o Jana - e neste caso, a Joana Rita - o pensamento é algo que pode ser melhorado.

neste ponto eu sou fã do walk the talk e procuro constantemente essa melhoria do meu pensamento. como? treinando com outras pessoas engajadas no filosofar, fazendo formação na àrea, criando espaços de diálogo, lendo e fazendo exercícios.

não só defendo que o pensamento pode ser melhorado, como essa melhoria que se consegue tem de ser treinada para evitar que se caia em vícios de pensamento, falácias ou alguma ferrugem no pensar. 

foi precisamente durante uma formação que surgiu a questão das respostas certas e erradas e resolvi pensar e escrever sobre o tema. para o efeito, recuperei o texto do Jana e fiz algumas perguntas a dois filósofos com quem tenho trabalhado (Vitor Lima e Jose Barrientos Rastrojo) e também numa daquelas sondagens do instagram - isto só para perceber qual é o entendimento do público em geral, através de uma amostra pequena dos seguidores da filocriatividade

 

das respostas certas e das respostas erradas 

 

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a maioria das pessoas concordou com a afirmação. poucas apresentaram a sua justificação na story seguinte:

  • "há perspectivas teóricas divergentes" 
  • "quando o diálogo está se construindo existem respostas coerentes e não coerentes"
  • "as respostas devem ser avaliadas e há mecanismos da filosofia para o fazer"
  • "independente da resposta, ela deve sempre gerar uma reflexão, novas descobertas e pontos de vista"
  • "os nossos pontos de vista não são certos nem errados" 

(sobre esta última justificação, saltou uma pergunta na minha cabeça: e se o ponto de vista for "a terra é plana?" podemos dizer que não está certo nem errado, é só um ponto de vista?)

 

quando iniciamos um diálogo filosófico e partimos de uma pergunta ou de um recurso a partir do qual iremos fazer perguntas, não podemos dizer quais são, à partida, as respostas certas e as respostas erradas. eu não sei como é que vamos trabalhar o conteúdo da pergunta, nem quais são os argumentos que vão ser utilizados.

sim, posso preparar-me para o diálogo e desenhar possibilidades, porém não sei à partida se a pessoa X ou Y vai dar uma resposta certa ou errada.

o que tenho são ferramentas que me permitem avaliar as respostas que vão surgindo - incluindo as minhas próprias respostas. 

 

o diálogo filosófico e os tipos de acordo entre os participantes

passo a palavra ao Vitor Lima (INÉF) para esclarecer o tipo de acordo que surge no âmbito de um diálogo filosófico:

Não devemos defender que num diálogo filosófico não há respostas certas, nem erradas, por dois motivos: há acordo consensual e não substancial sobre respostas certas; há acordo consensual e não substancial sobre respostas erradas. É preciso explicar o que é consensual e substancial. Consensual é algo adotado pela maioria dos filósofos. Substancial é uma ideia propositiva e construtiva -- pode ser um argumento para provar uma tese, um conceito para descrever um fenômeno, uma formulação de um problema para resolver uma questão. Não ser substancial é ser uma ideia negativa ou transversal. Negativa é uma ideia que critica outra. Transversal é uma ideia não principal dentro de um problema, de um argumento ou de um conceito.

nesse sentido, Vitor, como encaramos as respostas erradas? 

Ser uma ideia negativa é ser uma que defende que um argumento é falho, um conceito tem furos, a formulação de um problema é não satisfatória. Um ideia negativa ataca outras ideias. Por exemplo, a teoria verificacionista do significado, segundo a qual uma proposição só tem significado se pode ser verificada empiricamente é consensualmente considerada falsa pelos filósofos. Algo pode ter significado, ainda que não seja verificável empiricamente. Aliás, a própria ideia verificacionista não é verificável empiricamente e, nem por isso, deixa de ter significado. Esse é um acordo consensual sobre uma ideia errada. Portanto, há acordo consensual e não substancial sobre respostas erradas.

 

e as respostas certas, Vitor?

Ser uma ideia transversal é ser uma ideia que estabelece distinções meramente instrumentais. Por exemplo, no problema do mal (isto é, como conciliar a existência de um Deus onipotente, onisciente, onipresente e todo benevolente com o mal no mundo?), a distinção entre mal moral (causado pelo homem) e mal natural (um ato não intencional da natureza) é amplamente aceita. É uma ideia consensual, mas não substancial. Portanto, há acordo consensual e não substancial sobre respostas certas.

 

Vitor, se não há um grande número de respostas consensuais entre os filósofos, isso significa que não há de todo respostas consensuais? 

Do fato de não haver um grande número de respostas consensuais, não significa que não há respostas consensuais em absoluto em Filosofia. Vimos que há consenso, embora não substancial. Isso, porém, também não significa que a investigação filosófica seja um questionamento perpétuo cujo intuito seja a discussão pela discussão. Quando nos perguntamos pelo conceito de Justiça, é porque queremos encontrar a resposta certa para guiar nossas decisões coletivas, não porque queremos brincar de discutir. Quanto defendemos um argumento ontológico materialista, a intenção é descobrir a estrutura fundamental da realidade e não apenas brincar de discutir. Quando formulamos o problema do livre arbítrio, é porque queremos estabelecer a melhor maneira de compreender as variáveis envolvidas na questão, e não apenas brincar de discutir.
Haver respostas certas e erradas no diálogo filosófico é o que faz dele algo realmente filosófico e não meramente um jogo verbal. O ato de filosofar não almeja simplesmente o questionamento pelo questionamento, mas sim encontrar as respostas para os problemas mais fundamentais da realidade. Respostas certas, não erradas.

 

assinalei a negrito um dos pontos chave da resposta do Vitor e que defendo na minha prática. o meu papel enquanto facilitadora ou guia do diálogo é ajudar o grupo a encontrar a resposta mais razoável - tal como nos diz o título do livro de Reznitskaya e Wilkinson: The Most Reasonable Answer

e como encontrar essa razoabilidade nas respostas?

passo a palavra a Peter Worley e ao seu mais recente livro Corrupting Youth (vol 1, p. 12):

(...) in philosophy, the best answers in respect of candidacy to being tue, acceptable, possible or morally right are the best in virtue of the quality of the reasoning behind them and how the reasoning accords with or challenges our intuitions. That notion of towards [the most reasonable answer] does not mean that the most reasonable answer is always or automatically correct or true (etc.), and it is this sensitivity. that makes all answers in philosophy therefore provisional: they remain - however good - open to revision or rejection

This provisionality is, in the best examples, what most people mean when they say "there are no right or wrong answers in philosophy". But however well-intentioned, it remains an inaccurate and misleading phrase.

 

a minha sugestão é que se abandone esta formulação, pois ainda que possa ser bem intencionada, pode ser mal interpretada e é pouco precisa, tal como nos diz Peter Worley. 

na conferência Philosophizing Together, Peter Worley sublinhou ainda que: 

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*

quando pedi a colaboração do Vitor Lima e do Jose Barrientos Rastrojo para este artigo, a minha pergunta foi: "porque é que não devemos dizer que num diálogo filosófico não há respostas certas nem erradas?"  a minha pergunta já tinha como pressuposto que esta ideia deve ser evitada, a de que não há respostas certas nem erradas. 

passemos a palavra ao Pepe Barrientos, autor do livro Hambre de Filosofia, que parte de um exemplo actual: 

La vida práctica exige respuestas justificadas por y fundadas en razones porque tenemos que tomar decisiones. Por ejemplo, si a un hospital llega una persona de ochenta años y otra de veinte con cuadros muy graves de COVID-19 y sólo hay un respirador, el médico ha de tomar una decisión rápida; en caso contrario, la vida responderá por él de la forma más fatídica para los dos pacientes. Ahora bien, la Filosofía (Aplicada) se dedica a entrenar a ese médico y a otras personas, para poder elegir de la mejor forma de actuar en este y otros casos graves.
Esta ejercitación filosófica entrena en , primero, ser hábil para analizar cada una de las dos posibilidades del médico; segundo, crear terceras vías que puedan integrar las anteriores; tercero, introducir una razón crítica (más allá de la instrumental) que permita analizar los fines de la acción concreta; cuarto, estudiar si existen modos no racionalistas o lógico-argumentales de pensar, que puedan forjar una respuesta alternativa a la mediada por la razón occidental; quinto, estudiar las dimensiones estructurales y biopolíticas de nuestras determinaciones; sexto, determinar no sólo la decisión sino los criterios (metacognitivos) que determinan nuestra acción e incluso, séptimo, conocer las determinaciones sensológicas de nuestra decisión.
Todo esto exige un entrenamiento donde no se buscan respuestas válidas o incorrectas sino el proceso para generarlas y la ejercitación para conseguirlas. Este entrenamiento es próximo de una Filosofía Experiencial, de una Filosofía Aplicada o de una Filosofía para/con Niñ@s. Como señalaba Foucault en la "Microfísica del poder": "“El intelectual no puede seguir desempeñando el papel de dar consejos. (…) Lo que el intelectual puede hacer es dar instrumentos de análisis (…). Ahí está el papel del intelectual. Y ciertamente no en decir: esto es lo que debéis hacer”

 

o Jana sublinha a importância de não defender que "vale tudo": 

É imprescindível afirmar que nem todos os pensamentos se equivalem. (...) Vivemos um pensamento mole, incapaz de distinguir o que é distinto. No entanto, já Aristóteles nos tentou ensinar, há muito tempo, que nem todos os pensamentos se equivalem, tanto do ponto de vista lógico como do ponto de vista ético e político.

 

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as ferramentas que a filosofia nos dá para procurar a resposta mais razoável

no seguimento do que defende Pepe Barrientos, a filosofia exige um treino para encontrar as respostas válidas ou incorrectas, bem como para levar a cabo os exercícios que decorrem dessa busca. 

as ferramentas que a filosofia coloca à nossa disposição são a lógica, a clareza, a argumentação, bem como as virtudes intelectuais (humildade, curiosidade, autonomia, tenacidade, coragem, integridade).

estas ferramentas permitem-me trabalhar sobre o pensamento dos outros - e também sobre o meu próprio pensamento. este trabalho inclui identificar argumentos, problematizar, conceptualizar, resumir / sintetizar, interpretar e também avaliar as ideias que surgem. sim, avaliar quais são as respostas mais razoáveis e com as quais podemos seguir e aquelas que temos de colocar de parte, por não serem adequadas ou válidas. 

avaliar as respostas é um trabalho que implica honestidade e clareza nos critérios que são considerados.

trata-se de um trabalho sério, ainda que seja apresentado de forma lúdica ou ainda que possa partir do jogo. a ideia de Brincar a Pensar é colocada pela Dina Mendonça e pela Maria João Lourenço no título do seu livro e por Angélica Sátiro na sua proposta Jugar a Pensar.  a filosofia é uma brincadeira muito séria

 

O objectivo filosófico, neste campo, é cada um de nós, a começar por “mim”, sejamos capazes de viver segundo o mantra: ser capaz de pensar hoje melhor que ontem e amanhã melhor que hoje. E, tanto quanto possível, numa procura partilhada.
Como numa roda da filosofia. (Alves Jana

 

os diálogos filosóficos, as oficinas de filosofia, são difíceis, pois

1) exigem um trabalho que não é natural: parar para escutar e para pensar e

2) convidam os participantes a falar sobre o seu posicionamento. 

 

este trabalho de pensar, de escutar, de falar, pensando as ideias, tomando respostas como válidas ou como inválidas - é este trabalho que distancia o diálogo filosófico de uma conversa de café, entre amigos que só estão focados em conviver e não em analisar com profundidade os temas.

em suma e correndo o risco de me repetir: a filosofia dá-nos ferramentas para analisar, criar, recriar pensamento, a partir das minhas ideias e das ideias dos outros – mesmo daquelas pessoas com as quais não concordo ou que se posicionam num quadrante que não é o meu. 

 

artigo publicado a 26.08.2021 e actualizado a 24.06.2022

 

sobre a experiência do tempo

joana rita sousa, 08.05.21

mpho-mojapelo-I84vGUYGUtQ-unsplash.jpga vida pandémica empurrou as minhas oficinas de filosofia para o zoom.

as oficinas de filosofia em formato online têm permitido o encontro entre crianças e jovens de geografias muito distintas: de Norte a Sul + ilhas de Portugal, Cabo Verde e Brasil. o nosso ponto de encontro é a língua portuguesa, além da curiosidade e do gosto pelo pensar.

a experiência de ter pessoas de fusos horários diferentes num tempo que é comum a todos (ainda que seja cronologicamente diferente para cada um) é algo que me faz pensar naquilo que entendemos por tempo.

trata-se de uma experiência filosófica, que levanta problemas filosóficos.

estaremos a criar outro tempo quando nos reunimos num espaço [virtual] partindo de tempos diferentes? 

 

(fotografia: unsplash)