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filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de perguntas, para crianças / para pais e filhos | formação para professores e educadores (CCPFC) | #filocri | #filopenpal | #FilosofiaAoVivo

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língua gestual portuguesa e #covid19pt

o projecto ouVER-te crescer nasceu há uns anos, quando a Susana e o João, pais do Tiago, um menino surdo, decidiram aprender língua gestual portuguesa para comunicar com o filho. 

conheci a Susana e o João nos cursos de LGP que fiz. depois, acabei por dar aulas numa AEC de filosofia na escola da Sarah, a irmã do Tiago. fui acompanhando este projecto que, agora, por motivos de isolamento social e distanciamento físico, conquistou o foco e o tempo da família.

há um canal de youtube e uma página de facebook, que podem acompanhar para aprender língua gestual portuguesa.

mãos à obra? 

 

dois mundos que se cruzam, que se enriquecem

na sala dos 5 anos, com crianças ouvintes e surdas: língua portuguesa e
língua gestual portuguesa LITERALMENTE de mãos dadas

 

 

 

na sala do 2º ano do 1º ciclo: investigamos o que era a filosofia; para tal, usamos

o gesto para a palavra FILOSOFIA

 

o que quer dizer? relaciona-se com o quê?

 

"pensar"

"imaginar"

"anjo"

"doido"

 

vamos investigar?

 

 

 

3º Congresso Internacional de Educação de Surdos

Realizou-se no passado dia 11 de Abril, na Casa Pia de Lisboa, o 3º Congresso Internacional de Educação de Surdos. O programa prometia diversidade de opiniões e de posturas perante alguns temas que são "polémicos" no âmbito da educação para surdos. Os implantes, o bilinguismo, a língua primeira, a língua natural, a língua materna... Para quem "entrou" recentemente neste mundo, é fácil perceber que, como em muitas matérias da actividade humana, o consenso é difícil de se alcançar.

 

A professora Isabel Correia, da Escola Superior de Educação de Coimbra apresentou-nos uma perspectiva muito inclusiva da educação. Em vez de pensarmos na inclusão como um caminho surdos -» ouvintes, podemos pensar no caminho inverso: ouvintes -» surdos. Esta questão parece-me muito pertinente; penso que seria possível que todas as crianças aprendessem Língua Gestual Portuguesa (LGP) na escola. Poderia ser uma oferta como o inglês ou o francês. Ou o mandarim!
Olhando à nossa volta, "tomando um banho de realidade", o que acontece é que há escolas onde as próprias crianças surdas não têm acesso à aprendizagem da LGP, tal como está contemplado na lei.

 

Joaquim Melro partilhou connosco alguns dados e números preocupantes relacionados com a educação dos surdos: em 2012, 80% dos surdos não tinham acesso à educação. E dos 20% que contrariam este número apenas 2% acede através da Língua Gestual.
É preocupante que muitos surdos, adultos, não sejam capazes de ler ou escrever em português - e por isso encontrem tantos obstáculos comunicacionais num mundo onde a língua gestual não é praticada pela maioria da população. Aliás, há um número considerável de surdos que não domina a língua gestual. Eu cresci com um surdo que, apesar de ter frequentado uma escola específica para surdos, há uns 30 anos, não domina a LGP. Acho que eu, a meio do nível II de LGP, domino melhor a língua do que ele. E a sua escrita/leitura do português é deficiente.
 

 

A tarde permitiu-nos conhecer alguns projectos muito interessantes, ao nível das artes, da expressão plástica e da aprendizagem da matemática no pré-escolar.
Felizmente realiza-se muito trabalho ao nível dos recursos que permitam a aprendizagem das mais variadas matérias, no jardim de infância, através da língua portuguesa e da língua gestual portuguesa. Uma estratégia win/win para crianças surdas e ouvintes, na minha modesta opinião.
O professor Carlos Santos referiu o método de Singapura, para o ensino da matemática, que inclui momentos de abstração e expressão ("oralidade") que vão ao encontro daquilo que, por exemplo, se defende ao nível da filosofia aplicada (para crianças). A criança escolhe X ou Y num dado exercício e é levada a JUSTIFICAR, a dizer o PORQUÊ daquela escolha e não de outra.

 

Houve lugar, ainda, a algumas posições sobre os implantes cocleares e a necessidade de aprendizagem de Língua Gestual Portuguesa desde o jardim de infância. De uma forma muito empírica, eis algumas das coisas que observo:
- falta de acesso das crianças à aprendizagem de LGP em sala de aula;
- ausência de sensibilização para com as famílias e amigos das crianças surdas para a aprendizagem de LGP e o seu uso na comunicação com a criança;
- corre-se o risco de criar aqui um terceiro termo, entre os surdos e os ouvintes, e que são os implantados. O implante deverá, quanto a mim, constituir uma opção consciente da família (infelizmente muitos gostariam de optar e não têm condições financeiras para tal) mas não deverá retirar a criança do seu processo de aprendizagem da LGP. Parece-me que o bilinguismo deverá ser uma realidade. Aliás, o multilinguismo - por exemplo, eu sei língua portuguesa, francês, inglês... tenho "umas luzes" de espanhol, de japonês e de sânscrito. E agora estou a aprender LGP. Parece-me natural que outras pessoas o façam;
- para além do terceiro termo, os implantados, cria-se um conceito estranho: o de surdo-ouvinte. Parece-me que uma criança, ainda que implantada, não deixa de ter a sua identidade como pessoa surda, apesar dos ganhos auditivos que o implante possa trazer.
Louva-se o trabalho de escolas como a ESEC, que tem, neste momento, uma oferta única para os alunos surdos: em todos os cursos há intérprete de LGP.
O aspecto MAIS POSITIVO foi mesmo o facto das associações, federações, escolas, pais considerarem de máxima importância construir pontes de diálogo, até para que se possa compreender as mudanças que se estão a preparar relativamente à lei 3/2008

No quadro da equidade educativa, o sistema e as práticas educativas devem assegurar a gestão da diversidade da qual decorrem diferentes tipos de estratégias que permitam responder às necessidades educativas dos alunos. Deste modo, a escola inclusiva pressupõe individualização e personalização

das estratégias educativas, enquanto método de prossecução do objectivo de promover competências universais que permitam a autonomia e o acesso à condução plena da cidadania por parte de todos.  

 

(...)

 

A educação das crianças e jovens surdos deve ser feita em ambientes bilingues que possibilitem o domínio da LGP, o domínio do português escrito e, eventualmente, falado, competindo à escola contribuir para o crescimento linguístico dos alunos surdos, para a adequação do processo de acesso ao currículo e para a inclusão escolar e social.

 

No meio destes encontros e desencontros, espero que a comunidade surda possa (re)pensar a sua própria identidade e cultura, defendendo a LGP como base essencial, a par da aprendizagem da língua portuguesa. Com prótese auditiva ou com implante - ou sem nada disso, o importante é que os surdos sejam capazes de comunicar, de debater, de dialogar sobre aquilo que é ser surdo. Acima de tudo, que possam assumir-se como pessoas plenas e que a surdez não seja uma condenação a uma vida com qualidade inferior e sem liberdade, sem a hipótese de considerar alternativas para o seu futuro.

 

 

 

A Liberdade é consolidada pela consciência de múltiplas  alternativas; Para cada opção no nosso quadro familiar, profissional, artístico, social, de cidadania, cada um de nós devia ser capaz de listar um conjunto de caminhos; temos de poder escolher para que a liberdade seja real, a liberdade não é um estado de consciência, um estado de alma - embora muitos discordem - a liberdade cresce quanto mais hipóteses conscientes e presentes de caminhos tivermos de trilhar, em cada momento da nossa vida e junto de cada grupo de contexto;

A consciência das alternativas depende da aprendizagem, do estudo, da investigação, que cada vez mais estão ao alcance de todos; aprender é hoje em dia a melhor evidência (resultado) da democracia; já quase tudo foi escrito e essas alternativas já foram pensadas, vividas, recusadas, escolhidas por outrém; não é a originalidade dos caminhos que fomenta a liberdade, é sim a consciência de que cada um pode listar um sem fim de alternativas; e mais, nem sequer importa, quando falhemos uma opção, porque na maioria dos casos, temos na vida muitas oportunidade de fazer e desfazer opções;

Depois mesmo que não as escolhamos, isso também não importa, porque nos apoderámos do processo, fomos nós que não quisermos seguir um caminho diferente, fizemos a escolha. E sempre que escolhemos somos donos de nós próprios.

 

neurociência, sala de aula, educação de surdos e inclusão

 

 

no passado dia 7 de Março, o IDEPH organizou uma conferência subordinada ao tema das neurociências, ciências cognitivas e educação. o encontro contou com a participação de Judy Willis que nos falou sobre alguns aspectos relacionados com

 

o cérebro, a aprendizagem e o ensino,

princípios básicos das neurociências,

estratégias para cativar e manter a atenção dos estudantes,

o impacto da emoção no cérebro e a sua influência na aprendizagem

 

tivemos a oportunidade de aprender alguns modelos que nos permitem manter os níveis de prazer durante a aprendizagem, bem como permitir que a neuroplasticidade - o processo através do qual os pensamentos e acções modificam o cérebro - aconteça de forma consciente

 

como preparar o cérebro das nossas crianças para os desafios do futuro? - esta era a grande pergunta do dia. com as partilhas de Judy saímos da sala com algumas luzes e, sobretudo, pistas para desenvolver a nossa própria investigação e prática. o desafio passa pela tomada de consciência de que estamos a formar as nossas crianças para que sejam capazes de resolver problemas que ainda não existem.

 

como é que isso se pode fazer?

 

parece-me que só podemos educar/formar/ensinar [e aprender com] crianças capazes de resolver problemas que ainda não existem, se (e só se) as dotarmos de coisas como:

 

- capacidade de trabalho colaborativo, em equipa

- capacidade de receber informação e de estabelecer prioridades no valor dessa informação

- pensamento crítico: analisar, conceptualizar, aprofundar

- flexibilidade cognitiva

- organização e categorização da informação (e do conhecimento)

 

para isso precisamos de pais, educadores e formadores sintonizados neste "comprimento de onda" e por isso também eles capazes de trabalho colaborativo, de receber informação, de analisar, conceptualizar... e por aí fora.

 

foi um dia de trabalho, de partilha que terminou com um debate animado onde, mais uma vez - e permitam-me o uso do sentido crítico - as pessoas tentaram fazer-se ouvir, sem ter nada de substancial para dizer e onde pais acusaram professores e vice versa. parece-me que se perde tempo útil nesta conversa de "a culpa é..." em vez de irmos para o terreno e fazer qualquer coisa: investigar, praticar, experimentar, avaliar, dialogar

 

todos concordam: cada pessoa é um ser único e irrepetível, absolutamente diferente. a neurociência diz-nos que cada cérebro é diferente e único.

desafio: como é que a educação (ou o processo ensino-aprendizagem) pode, na prática, salvaguardar, cultivar e valorizar essa diferença?

 

 

 

 

 

 

do gesto à voz continua no seu percurso de partilha e de formação: nos passados dias 22 de Fevereiro e 8 de Março continuamos a falar sobre educação e "inclusão" - uma palavra com a qual tenho cada vez mais dificuldade em lidar, admito. assumo aqui o compromisso de reflectir sobre esta palavra e aquilo que simboliza e de partilhar convosco o resultado desta minha reflexão. entretanto, deixo-vos com uma das minhas músicas preferidas, de sempre vista de uma forma que para mim era desconhecida. ora "oiçam" lá.

do gesto à voz: ciclo de conferências

 

 

teve início no dia 1 de Fevereiro o ciclo de conferências Do Gesto à Voz, dedicado à educação de surdos e inclusão. tive oportunidade de assistir a uma manhã plena de partilhas sobre a problemática da surdez no seio da educação, em conjunto com os meus colegas do nível II de Língua Gestual Portuguesa (LGP) e da nossa formadora, Patrícia.

 

a conferência contou com a presença de várias pessoas, em representação de entidades que trabalham na área da educação dos surdos ou que representam associações de pais e amigos. a reter o discurso emocionado do André Couto,  presidente da AFAS ( Associação das Famílias e Amigos dos Surdos ) que partilhou connosco um percurso de pai da M, uma criança surda, a quem o primeiro médico que diagnosticou a surdez traçou o seguinte cenário «os surdos não atingem níveis superiores de inteligência». acontece que a M entrou recentemente para o curso de Medicina (parabéns, M). a afirmação desse médico encerra em si imensos preconceitos: que a surdez condiciona a aprendizagem e limita o sucesso, que a inteligência se reduz ao QI e por aí fora.

 

Maria José Freire falou-nos da educação bilingue - língua gestual portuguesa e língua portuguesa - na educação dos surdos e de como há um fosso enorme entre a teoria e a prática, entre aquilo que está legislado e aquilo que acontece nas escolas.

 

Paulo Vaz Carvalho apresentou-nos um olhar histórico sobre a língua gestual e da necessidade da comunidade surda aceder ás fontes primárias, que contam essa história, para que possam escrever, com a sua própria "voz", essa mesma História. sublinhou ainda que faz falta a existência de dicionários bilingues (LGP - LP e LP - LGP) bem como outros materiais que possam ser usados nas escolas e pelos pais e sobretudo pelos alunos, para que estes possam estudar autonomamente, sem professor, sem intérprete.

 

lugar ainda para o testemunho de Shaiza, que partilhou uma experiência de cultura e identidade da LGP na sua educação.

 

parabéns ao Joaquim Melro e à sua equipa pela iniciativa. o Joaquim é, como eu, apaixonado pela educação, pela filosofia e pelo gesto. partilhamos essa paixão com a Carla Ribeiro, que tive oportunidade de (re)encontrar neste dia.

 

confesso que fiquei angustiada quando ouvi o representante da Casa Pia (?) relativamente à Filosofia. disse que tinha muitas dúvidas que um surdo conseguisse fazer um exame de Filosofia, do 12º. eu conheço muitos ouvintes que também tiveram essa dificuldade, por falta de estudo, de preparação ou simplesmente porque têm aquilo a que eu chamo de professor pedagogicamente incapaz (lamento informar-vos, mas também os há!). portanto, não me parece que essa incapacidade tenha alguma relação directa com o facto do aluno ser ouvinte ou surdo.

 

do gesto à voz: fazer a ponte entre o surdo e o ouvinte. no meu caso, a construção desta ponte é fundamental dado que, por motivos de ter sido "agraciada" com uma doença rara e incurável - síndrome de méniere - estou também eu a preparar-me para a ponte da audição para a surdez (uma das consequências da doença). se já tinha curiosidade em aprender LGP, desde 2011 que essa curiosidade ganhou contornos de necessidade, pois se há coisa que sei fazer bem é comunicar, transmitir ideias e conhecimentos - e não quero deixar de o fazer quando/se a surdez parcial tomar conta da minha vida definitivamente. além disso, acalento o sonho de orientar sessões de filosofia para crianças 100% inclusivas.

 

 

+ info sobre este ciclo de conferências AQUI

 

 

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