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filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de perguntas, para crianças / para pais e filhos | formação para professores e educadores (CCPFC) | #filocri | #filopenpal | #FilosofiaAoVivo

filocriatividade | filosofia e criatividade

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oficina do platão [online] - em março

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no passado dia 27 de Fevereiro estive à conversa com a Mariana no programa filhos & cadilhos, no Porto Canal. falámos um pouco sobre as oficinas de filosofia para crianças e sobretudo sobre a oficina do Platão, para crianças dos 7 aos 12 anos. 

as próximas oficinas já estão agendadas:

* 6 de março, às 11h

* 20 de março, às 11h

* 3 de Abril, às 15h

* 17 de Abril, às 15h

 

a oficina do Platão tem a duração de 1h e acontece aos sábados e de forma online. 

inscrições disponíveis neste formulário.

uma oficina de filosofia sobre felicidade

- oficina do Platão para crianças dos 7 aos 12 anos

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a felicidade

pretendia trabalhar o tema da felicidade, inspirada pelo livro Enciclopédia dos Verbos Felizes, de Marco Taylor. este livro fez-me ir à estante buscar um outro que também aborda a felicidade e a simplicidade: Selma, de Jutta Bauer. pensei em ler um ou outro no início da oficina, mas dei por mim a fazer uma agenda de discussão com exemplos de coisas que nos deixam felizes.

a leitura do capítulo Hapiness, no livro de Marietta McCarty, Big Little Minds, reforçou a ideia do trabalho em torno da simplicidade e das coisas que nos deixam (ou não felizes). este livro de McCarty é uma boa fonte de ideias para oficinas de filosofia, encontrando-se organizado por temas. a autora faz várias referências a filósofos. no tema da felicidade as referências são Epicuro e Charlotte Joko Beck; desta forma a autora procura dar suporte filosófico ao tema e também apresenta sugestões de trabalho com crianças e jovens. 

 

mais uma vez, o quantos queres

listei oito exemplos de coisas que nos deixam felizes (ou não) e escrevi esses exemplos no interior de um quantos queres. estava desenhada a oficina:

- apresentar o livro Enciclopédia dos Verbos Felizes como inspiração para pensarmos sobre a felicidade e para a criação do jogo;

- apresentar o jogo do quantos queres: uma pessoa diz um número para brincar com o quantos queres, outra pessoa escolhe  cor, eu leio o que está lá dentro e depois temos um tempo para pensar se aquilo que li é uma coisa que nos deixa felizes  ou não e porquê.

 

o que é uma enciclopédia? 

assim que li o título do livro do Marco Taylor eis que surgiu a questão. o que é uma enciclopédia?

pois é... não é claro para todos o que é uma enciclopédia. é parecido com um dicionário? é diferente? o que se procura lá? que aspecto tem? e foi nesse contexto que um dos volumes da LOGOS apareceu nesta oficina.

uma vez esclarecido este ponto começámos a jogar ao quantos queres.

 

não ter telemóvel - é uma coisa que te deixa feliz? 

"depende" - foi uma das respostas ouvidas. depende do quê, exactamente? esta resposta foi bastante útil para explorarmos um pouco o que é que o "depende" quer dizer, já que é uma resposta comum. será uma forma de fugir à resposta? será que significa indecisão? será que é uma forma de pedir contexto para poder definir um posicionamento? 

toda a oficina girou em torno do "não ter telemóvel". além de termos falado do modo como "usamos" o depende no diálogo, abordámos a questão do tempo que dedicamos à tecnologia, das coisas que o telemóvel nos dá, das coisas que o telemóvel nos tira - e da felicidade que isso nos dá (ou não).

 

a lista de coisas 

uma vez que dedicámos uma hora inteira a pensar naquela ideia, no final partilhei as outras coisas que estavam no quantos queres: 
-  arrumar o quarto
- fazer os trabalhos da escola
- o cheiro de um bolo acabado de fazer
- a felicidade de um amigo
- não ter telemóvel
- crescer e tornar-me adulto/a
- apanhar chuva no passeio com o meu cão
- ter uma boa nota na escola

 

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voltei à Enciclopédia dos Verbos Felizes para partilhar o livro com o grupo. abri página a página e partilhei as ilustrações do Marco. do outro lado houve sorrisos e também acenos com a cabeça, como que a dizer "não, não, isso não é algo que me deixa feliz".  já não houve tempo para explorar concordo / não concordo nem as razões.

ficou a sugestão de cada um dos participantes fazer um quantos queres em casa para pensar sobre estas coisas (ou outras) .

 

oficinas de filosofia que pesam na cabeça

 

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[PT]

hoje a oficina de filosofia para crianças e jovens terminou com a avaliação figuroanalógica. esta proposta de Angélica Sátiro consiste em usar imagens ou objectos no momento de metacognição, de pensar sobre o pensamento.

escolhi quatro objectos (ver fotografia).

um dos participantes escolheu o pisa-papeis pois é pesado e a oficina foi pesada.

perguntei porquê?

"porque estivemos a pensar muitas coisas e isso pesa na cabeça".

 

[ESP]

hoy finalizó el taller de filosofía para niños y jóvenes con una evaluación figurativoanalógica. esta propuesta de Angélica Sátiro consiste en utilizar imágenes u objetos en el momento de la metacognición, de pensar el pensamiento.

elegí cuatro objetos (ver foto).

uno de los participantes eligió el pisapapeles porque es pesado y el taller fue pesado.

¿Pregunté por qué?

"porque estábamos pensando muchas cosas y eso pesa en la cabeza".

 

[EN]

today the philosophy workshop for children and young people ended with a figuroanalogical evaluation. this proposal by Angélica Sátiro consists of using images or objects in the moment of metacognition, of thinking about thought.

I chosed four objects (see photo).

one of the participants chose the paperweight because it is heavy and the workshop was heavy.

I asked why?

"because we were thinking a lot of things and that weighs on the head".

 

oficina do platão [online]

- próximas datas

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estão quase a terminar as duas semanas de suspensão das aulas. o confinamento continua e regressam as aulas nas escolas, em formato de ensino à distância.

é também à distância que continuamos a desafiar crianças dos 7 aos 12 anos para praticar o diálogo, em grupo.

eis as próximas datas das oficinas do Platão:

dia 6 de Fevereiro > 11h às 12h
dia 13 de Fevereiro > 15h às 16h

dias 6 de Março e 20 de Março > 15h às 16h

 

"Na oficina do Platão nós falamos das coisas de todos os dias, mas falamos mais ao pormenor."

 

o formulário de inscrição está disponível AQUI

como dinamizar oficinas de filosofia em formato online?

- sugestões para pensar e estruturar uma oficina online, de filosofia

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a pandemia e o confinamento a ela associado "empurrou" as oficinas de filosofia para o mundo online. desde o verão de 2020 que tenho estado a moderar oficinas de filosofia em plataformas online, tendo recuperado a oficina do Platão (para crianças dos 7 aos 12 anos) para esse formato. 

 

escolher a plataforma e as ferramentas

há várias plataformas que podem acolher as oficinas online. o zoom, o google meet, o teams são algumas hipóteses. o importante é que o facilitador que acolhe as oficinas esteja confortável com a plataforma e seja capaz de ajudar os participantes a lidar com os "botões" que nela constam. 

ferramentas não nos faltam: neste documento encontra uma lista com ferramentas para uso nas mais diversas situações.  

a formação online exige preparação adequada, por parte do formador. escrevi sobre esse tema no journal da ActiveMedia e convidei a Helena Dias para falar sobre a sua experiência como formadora numa das edições do #twitterchatpt

 

definir e partilhar as regras 

é importante definirmos as regras de funcionamento do diálogo, tal como acontece nas sessões presenciais.

na grande maioria das vezes peço que os participantes estejam com os microfones desligados e só liguem quando lhes for passada a vez. para dar a conhecer a intenção de falar, basta levantar a mão ou colocar o dedo no ar. há plataformas que também têm essa funcionalidade: se a quisermos usar, temos de garantir que todos sabem onde está o "botão" para pedir a vez.

peço aos participantes que liguem a webcam, pois é simpático vermos os rostos uns dos outros; mas lembre-se que nem todos podem ter uma webcam ou esta pode não estar a funcionar.

outro pormenor: o acesso em mobile (tablet ou telemóvel) faz com que as pessoas vejam a plataforma de um modo diferente em relação ao acesso que fazemos através de um computador. portanto, teste a plataforma em mobile para poder ajudar quem acede desta forma a encontrar este ou aquele botão!

 

ligar o online ao offline

sempre que possível, crie ligações entre a sala virtual e o espaço físico onde a criança se encontra. por exemplo, a criança pode ser convidada a ir buscar um objecto para se apresentar

outra forma de pôr as pessoas a mexer é sugerir a criação de um quantos queres, partilhando o momento de construção do mesmo com o grupo. as crianças podem ajudar-nos a explicar como se constrói o quantos queres e assim conseguimos um momento de entreajuda entre todos.

a Katia Souza  partilhou no grupo Filosofia e Ensino uma forma de sinalizar as respostas SIM e NÃO, usando objectos comuns em casa: uma colher e um garfo: 

 

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a utilização de objectos envolve os participantes no diálogo, mesmo que não possa ser manipulado por todos os participantes. 

dou o exemplo da Kátia Souza, que usa este dado: 

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"Apresento um cubo e pergunto se quer que eu lance o cubo muito alto, médio, ou fraquinho. Assim que escolhem, lanço o cubo e a face que cair para cima é o "comando" para dizer algo sobre o tema, como por exemplo: "Dizer algo que considera certo"; "Dizer algo que considera errado", "Dizer o que apetece"; "dizer o que não gosta"; "fazer uma pergunta"; "passar a vez"... Tudo em relação ao tema escolhido."

 

partilhar a gestão da oficina com os participantes

os participantes da oficina podem partilhar connosco a gestão da oficina; por exemplo, ficando mais atentos à gestão do tempo.

o Guardião do Tempo foi uma figura que apareceu numa das oficinas de filosofia online, precisamente por estarmos a dialogar sobre o tempo e a importância que os relógios têm no nosso dia. 

é uma óptima ideia convidar os participantes a escolher uma dinâmica ou uma pergunta para a oficina. quanto mais os envolvermos, melhor. 

outra opção passa por convidar um dos participantes a fazer resumos ou pontos de situação em momentos diferentes da oficina. 

 

a importância do silêncio 

no formato presencial ou no formato online, o silêncio deve ser algo que não devemos temer. o silêncio é importante para termos tempo para pensar.

no formato online o silêncio também é uma forma de dar tempo para que o som chegue a todos. nem sempre a conexão da internet é favorável e temos de contar com essas dificuldades na gestão da oficina. 

 

que tipo de estímulos / provocações filosóficas usar em ambiente online? 

a grande limitação do online é que não podemos partilhar objectos ou trocar uma carta com uma ideia com o amigo que está sentado ao nosso lado.

na verdade, com as questões #covid19pt a partilha de objectos quanto estamos em formato presencial também conhece algumas limitações.

assim, é bom prepararmos uma provocação que possa ser partilhada e visualizada / escutada por todos os participantes. eis algumas ideias:

-  usar imagens alojadas num power point que será partilhado na plataforma;

- ler um pedaço de uma história e partilhar as ilustrações no écran, com o grupo;

- partilhar um vídeo directamente do youtube;

- plataformas como o zoom permitem opções de quadro branco, onde todos podem construir algo de forma colaborativa;

- partilhar uma pergunta num documento colaborativo, google drive, e fazer o registo das ideias nesse documento.

 

a leitura partilhada de um texto nem sempre funciona bem, pelo atraso que por vezes há na chegada do som a todos os participantes. poderá sempre experimentar e talvez este recurso da Topsy Page, um círculo online,  seja útil para visualizarmos a ordem de leitura ou de vez numa dada tarefa. 

 

há dias dinamizei uma oficina de filosofia a partir de duas histórias do livro "A Contradição Humana", de Afonso Cruz e do "Museu do Pensamento", de Joana Bértholo.

também estive a filosofar com crianças dos 7 aos 12 anos a partir destes limões que o meu vizinho me trouxe: 

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sobre a oficina dos limões irei escrever um artigo mais detalhado, sobre o processo de criação da oficina e também do processo de pensamento que os limões provocaram no diálogo. 

 

o que pensam as crianças das oficinas online?

perguntei a um grupo de crianças o que mais gostavam nas aulas presenciais e nas aulas online. das aulas presenciais sente-se a falta da "conversa com o vizinho", dos intervalos e dos convívios.

nas aulas online podemos estar mais confortáveis (por exemplo, estar de pantufos) e há menos ruído, pois podemos escolher ter o microfone desligado. 

outra vantagem apontada é a possibilidade de participar numa oficina com pessoas de sítios muito diferentes. por exemplo, a D. não precisa vir do alentejo a lisboa (onde eu vivo) para fazer uma oficina de filosofia. além disso, ainda pode encontrar os amigos nesta oficina, amigos que moram longe dela. 

*

é muito importante assegurar que os participantes (crianças, jovens ou adultos) numa oficina online estejam confortáveis com a plataforma. por isso, se a oficina começa às 15h, abra a sala às 14h50 para testar imagem, som e começar a envolver o grupo no processo. 

não tenho pressa em partir para a provocação filosófica: o foco número 1 está no grupo, em perceber se precisam de algum apoio. desta forma poderemos todos usufruir da oficina e do diálogo com  tranquilidade. 

tenho por hábito enviar um e-mail aos participantes com algumas instruções de uso da plataforma. alguns já têm experiência e não vão considerar a informação útil; outros poderão estar naquele ambiente pela primeira vez e é importante ajudar os participantes a manobrar a plataforma e a conhecer as regras de funcionamento. 

 

*

se tiver outras sugestões para oficinas online, por favor partilhe nos comentários! 

> este artigo foi actualizado a 22 de Fevereiro, com os contributos da Kátia Souza.

filosofar em tempos de confinamento e de pandemia

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as regras do jogo pandémico mudaram para se ajustar à realidade que vivemos e voltámos a confinar. assim, as oficinas presenciais que tinha agendadas para o final de janeiro foram canceladas. 

continuo com actividades online, sabendo que andamos todos um pouco cansados do écran. espero conseguir encontrar quem desse lado está disponível para praticar o filosofar, ainda que de forma online, com todas as saudades que já temos das acções presenciais, de não ter de medir os metros que nos separam. 

em tempos de confinamento, o écran permite-nos trabalhar, aprender, ensinar, celebrar aniversários e até jantar com amigos. e filosofar!

 

nos próximos tempos há actividades para todas as idades, em formato online:

- as oficinas de filosofia para crianças dos 7 aos 12 anos (oficina do Platão) - 23 de Janeiro, 6 e 20 de Fevereiro, 

- as oficinas para jovens dos 13 aos 17 anos (philoTEEN) - 23 de Janeiro e 13 de Fevereiro,

- os cafés filosóficos,  em parceria com a Bertrand Livreiros (o próximo é já no dia 25 de janeiro),

- a #FilosofiaAoVivo (no instagram) - Leibniz é o convidado do dia 29 de Janeiro,

- o #ClubeDePerguntas, que aceita novos membros no início de cada mês,

- a oficina de perguntas para famílias com crianças dos 4 aos 6 anos (a próxima é no dia 14 de Fevereiro).

 

nunca é demais agradecer aos parceiros, aos amigos, aos seguidores, aos subscritores e a todos vós que partilham os contéudos #filocri, que subscrevem a newsletter e assim dão um apoio essencial ao projecto filocriatividade. muito obrigada! 

dialogar na sala de aula

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a pedido de professores e educadores que acompanham este projecto, criei um ciclo de três seminários "dialogar na sala de aula - dimensões e habilidades do diálogo filosófico".

estes seminários acontecem em fevereiro, março e abril. podem ser frequentados individualmente e têm uma duração de 6h. as sessões são online e acontecem de forma síncrona.

 

mais informações neste link.

 

"Na maior parte das vezes tomam-se decisões na escola, na família, da sociedade, sobre o que é melhor para as crianças, acerca do que as crianças são e querem ser, do que gostam e precisam e não se ouvem as crianças."

- uma conversa com a Paula Vieira, a propósito da presença da filosofia e da infância no Global Teac

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no passado dia 30 de Outubro aconteceu a cerimónia da 3ª Edição do Global Teacher Prize Portugal. estiveram representados os professores portugueses que de uma ponta à outra do país dão o seu melhor pela educação e pela infância.

a Paula Vieira foi uma das professoras nomeadas para este prémio. conheci a Paula durante o meu percurso no mestrado da Universidade dos Açores. não podia deixar de assinalar este momento importante para a Paula e para a filosofia (para crianças) e foi assim que surgiu este diálogo, estas perguntas e respostas, à distância, via e-mail. esta partilha é mais uma forma de celebrar o Dia Mundial da Filosofia (19 de Novembro de 2020). como sabe, aqui na filocriatividade a filosofia celebra-se todos os dias! 

 

*

olá, Paula. antes de mais, parabéns pela nomeação para o Global Teacher Prize. o que significa para ti, enquanto professora, este reconhecimento?

Bom dia alegria. Olá Joana. Obrigada pela lembrança, pela simpatia e pelo interesse.

A nomeação para o Global Teacher Prize é uma nomeação para a força da ideia de juntar a filosofia e as crianças. A filosofia convidou as crianças e elas aceitaram o convite, trouxeram todas as infâncias e nada ficou como dantes.

A força da ideia de juntar a filosofia e as infâncias, cria outras possibilidades e outros modos de ser-se escola, de estar-se na escola, de fazer-se escola. E isto não acontece por causa de uma ou outra professora, de uma ou outra personalidade.

Toda a estrutura do concurso e a lógica do Global Teacher Prize é a de nomeação de uma pessoa, porém eu sou somente a face visível de um grupo de pessoas filosofantes, de todas as idades, que acreditaram e deram corpo à ideia de promover o encontro entre a filosofia e infâncias. Refiro-me, naturalmente a crianças, adolescentes, jovens, adultos, professorxs, estudantes, órgãos diretivos da escola Armando Côrtes-Rodrigues (Vila Franca do Campo, São Miguel, Açores), Autarquia de Vila Franca do Campo e o Mestrado de Filosofia para Crianças da Universidade dos Açores.

 

o mestrado foi o espaço e o tempo onde nos conhecemos. não posso esquecer que foste apoiar-me no dia da defesa da minha dissertação, naqueles tempos longíquos em que era preciso viajar de lisboa para são miguel para defender uma dissertação. agora conseguimos fazê-lo com uma simples viagem zoom.

para quem não conhece, podes falar um pouco sobre as Filosofâncias? como começou este projeto?

Sabes, Joana, existirão muitas maneiras de se contar uma história. Uma delas, suponho será contar a história a partir daquilo a que chamo “ideias tipo murro no estômago”. São aquelas ideias que nos deixam sem ar, nos tiram o chão e fazem-nos pensar a partir de outros lugares que não os habituais e costumeiros. Posso dizer-te que foi assim que começaram as Filosofâncias na EBS Armando Côrtes-Rodrigues em Vila Franca do Campo, São Miguel Açores.

Passo a contar a história.

Em 2012, numa ação de formação da Universidade dos Açores subordinada ao tema “Filosofia para Crianças”, conheci Matthew Lipman, o filósofo norte-americano que afirma que as crianças têm fome de sentido e que a escola está a matar à fome a fome de sentido que as crianças têm. Foi uma ideia tipo “murro no estômago”. Como poderia eu, enquanto professora, e a escola enquanto sistema e instituição, estar a matar à fome esta fome de sentido?

 

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Em 2014/2015, o grupo de filosofia da escola criou o projeto Filosofâncias: comunidades de investigação filosófica. Iniciou-se com 39 alunos, duas turmas do primeiro ciclo. No ano letivo de 2020/2021, são 580 estudantes-filosofantes (27 turmas) desde o pré-escolar até ao 8.º ano de escolaridade que têm sessões regulares e continuadas de investigação filosófica em comunidade (45 minutos todas as semanas). O modelo educativo é o da experiência de pensamento em comunidade de investigação filosófica que acontece em contexto de sala de aula. As mediadoras (com formação em filosofia e algumas também em fpc) são recebidas nas salas de aula, a convite dxs professorxs da turma e, todxs juntos, fazemos sessões de diálogo filosofante com crianças. O projeto Filosofâncias é reconhecido no Projeto Educativo da escola como um projeto identitário e constituindo esta Instituição a única na Região Autónoma dos Açores, e uma das poucas no País, com um projeto estruturado e transversal na área.

A relação estreita entre o projeto Filosofâncias da escola Armando Côrtes-Rodrigues e o Mestrado em Filosofia para Crianças da Universidade dos Açores, protocolizado desde 2015, tem trazido à escola filósofos da área para investigarmos filosoficamente em conjunto: crianças-filosofantes, professores filosofantes e filosófos-filosofantes. E a escola Armando Côrtes-Rodrigues tem sido convidada a estar presente em fóruns internacionais da especialidade. A parceria entre escola Armando Côrtes-Rodrigues, pela mão das Filosofâncias, e  a Universidade dos Açores, pela mão do Mestrado em Filosofia para Crianças, derrubou alguns muros tradicionais entre a academia e a escola: as crianças, jovens e professores entram na universidade não como objetos de estudo mas como parceiros na construção de conhecimentos e os professores universitários entram na escola não como especialistas com receitas a implementar mas como parceiros de experiência de pensamento, e esta é mais uma ideia tipo “murro no estômago”.

 

do teu ponto de vista, qual é a mais valia da filosofia no percurso escolar da criança?

A pergunta do impacto ou da mais valia da filosofia no percurso escolar da criança é uma das que mais me colocam… E, suspeito, que esta é uma questão que se pode transformar numa armadilha para este encontro entre a filosofia e as crianças.

Será necessário uma mais valia para a presença da filosofia no percurso escolar da criança? Não poderemos ser conduzidos a pensar que, de certa maneira, o que se passa no percurso escolar é uma espécie de investimento no futuro e que encaramos as crianças/jovens como pessoas em compasso de espera, a quem lhes falta ser no presente? Não será isso que se adivinha em afirmações tão comuns e bem-intencionadas como “as crianças e os jovens são o futuro, o amanhã de uma sociedade”? Na maior parte das vezes tomam-se decisões na escola, na família, da sociedade, sobre o que é melhor para as crianças, acerca do que as crianças são e querem ser, do que gostam e precisam e não se ouvem as crianças.

Ora, uma comunidade de diálogo filosofante com crianças, como a entendemos no projeto Filosofâncias, é um lugar de encontro entre pessoas de todas as idades, em torno de perguntas que nos fazem pensar em conjunto em que mundo vivemos e em que mundo queremos, em conjunto, viver. É um encontro num tempo presente que dura. É um encontro onde a pergunta “o que é que queres ser quando fores grande”, por exemplo, parece menos interessante do que perguntar “enquanto não for grande o que sou ou é preciso ser grande para ser?” As sessões de diálogo filosofante promovem a escuta das vozes infantis e, o maior desafio, para além de escutar as vozes é pensar com elas.

A tua pergunta, Joana, provocou em mim uma outra pergunta: qual seria a mais valia do pensamento filosófico infantil para o percurso da filosofia?

 

boa pergunta, essa. tenho outra para ti, aqui no bolso.

podemos dizer que a filosofia é necessária nesse percurso escolar?

Atrever-me-ia a dizer que sim. A filosofia entendida como um modo de estar no mundo, como uma olhar infantil para a escola, cria possibilidades de abrir brechas dentro da instituição escolar para novos modos de relações educativas, novas relações com o conhecimento a partir da pergunta. É que as respostas podem estar certas ou erradas e introduzem clivagens entre as pessoas que sabem e as que não sabem. As perguntas não estão certas nem erradas, serão interessantes, serão início de pensamento, permitem que os assuntos continuem e o pensamento se desdobre e, suspeito, que as perguntas sejam mais democráticas do que as respostas.

O encontro entre a filosofia e as crianças pro-voca uma certa perturbação, um certo desassossego, uma certa mudança na ordem comum, e indica-nos novos olhares sobre a filosofia e o filosofar. Em certo sentido, lança um olhar diferente acerca do que é uma criança, não enquanto potência para o que pode ser, mas para o que é. A filosofia cumpre, desde modo, mais algumas das suas vocações: a filosofia para/com crianças trouxe para a filosofia o filosofar infantil e reconhece as crianças como sujeitos válidos de um pensar filosófico, dá voz a uma diáspora humana: à infância; derruba muros entre diferentes espaços educativos como seja a escola e a universidade; abre na escola espaço para a skolé, um lugar de encontro com a pergunta, de encontro entre humanos de diferentes idades, de encontro com o tempo presente…

A título de exemplo: António, uma criança de oito anos, afirmava em 2016: “As sessões de filosofia não são aulas. Nas aulas fala-se de coisas que aconteceram no passado e coisas que servem para o futuro. Nas sessões de filosofia tratamos de coisas da nossa vida, o que importa no presente, por exemplo, o que é a vida, o que é a felicidade e outras coisas…” O menino verbaliza que o processo de pensamento de uma comunidade de investigação filosófica é um pensar relativo à experiência de vida significativa, presente, vivenciada na e pela comunidade, isto é, não se trata de preparar-se para algo que está para vir. As sessões de filosofia, este espaço que é o mesmo de uma aula comum, enche-se de vida presente, da presença da vida e torna-se num lugar, uma presença no presente.

 

se um pai ou uma mãe te pedirem um conselho, uma sugestão sobre como praticar as perguntas, em casa, que sugestão farias?

Sugeria que escutassem as perguntas das crianças e as alimentassem com mais perguntas, e resistissem à tentação e, acrescentaria, à tirania de dar respostas. Sugeria que experimentassem deixar impregnar o próprio pensamento com as perguntas infantis, dito de outro modo, tornar a pergunta infantil num perguntar-se. Talvez possamos pensar que um caminho que se inicia com a pergunta, que se alimenta com o perguntar e se transforma num perguntar-se seja um modo de nos encontrarmos infantilmente uns com os outros, independentemente das idades.

 

podes falar um pouco sobre o projecto ¿filo... quÊ? Do que se trata e como podemos ter acesso a ele?

O ¿filo... quÊ? é uma rubrica de filosofia para crianças incluída no programa televisivo “Aprender em Casa” da Direção Regional da Educação (DRE). Após a experiência de confinamento no ano letivo anterior, o Diretor Regional da Educação pensou que seria importante que a filosofia para crianças também tivesse o seu espaço no “Aprender em Casa”.  A nova rubrica ¿filo... quÊ? do programa Aprender em Casa, nasce da parceria já existente entre a Universidade dos Açores, através do Mestrado em Filosofia para Crianças, e da Escola Armando Côrtes-Rodrigues, no âmbito das Filosofâncias.

Esta rubrica não assume como público-alvo uma faixa etária única, mas dirige-se a qualquer ser humano que se relacione filosoficamente com o mundo através de perguntas, ideias e conceitos que decorrem da sua própria experiência.

Os programas, nas suas diferentes fases de conceção, escrita e gravação, contam com a colaboração das crianças. Considera-se que esta é uma oportunidade de escutar as vozes, pensamentos e perguntas das crianças enquanto construtoras dos mundos em que habitam, reafirmando alguns pressupostos que a própria filosofia assume no modo como está na escola. Neste contexto, o programa conta com um Conselho de Conselheiros formado por crianças de diferentes idades. Este Conselho acolhe diferentes crianças ao longo do ano letivo, reúne-se semanalmente para a realização de sessões de filosofia que servirão, elas próprias, de sementes para os guiões dos programas.

A rubrica é da responsabilidade de uma equipa multidisciplinar, quer do Mestrado em Filosofia para Crianças, quer do projeto Filosofâncias, o que reafirma também a dimensão transversal do pensamento filosófico.

É uma rubrica que não assume um formato fechado, mas que se pensa e se reinventa a partir da posição filosófica de maravilhamento em relação ao mundo, assim como do ponto de partida de não-saber. Espera-se que o ¿filo... quÊ? seja um tempo para que a infância brinque filosoficamente e a filosofia se pense infantilmente.

Todos os programas estão disponíveis no canal de Youtube Filosofia para Crianças na Universidade dos Açores.

 

além da filosofia e da filosofia para crianças, eu e tu temos outra coisa em comum: o gosto pela leitura e pelos livros.

por isso, termino este vai e vem de perguntas e respostas com uma curiosidade: que livro estás a ler neste momento?

Se te referes aos livros de cabeceira, leio sempre muitos livros ao mesmo tempo e, alguns deles, são releituras. Não sei bem porquê… Talvez porque sim.

Os que me acompanham agora são: Conversação com Diotima de Agostinho da Silva, O Leitor de Bernhard Schlink, Meu Pé de Laranja Lima de Pedro Mauro de Vasconcelos e Vamos Comprar um Poeta de Afonso Cruz.

 

Agostinho da Silva e  Afonso Cruz, esse autores filosoficamente provocadores!

obrigada, Paula, pela disponibilidade. e parabéns!

“Ah, trabalhas nisso da filosofia para crianças?”

 

 

Desde 2008 que trabalho na área da filosofia para crianças (FpC). Fiz formação - ainda faço – trabalho em jardins de infâncias, em escolas. Tive um projecto num ginásio. Levo as oficinas de filosofia a vários pontos do país – e não só. Dou formação a professores e educadores. Tenho recebido muitos e-mails a solicitar apoio, esclarecimento de dúvidas – sobretudo a quem desenvolve investigação nesta área.

Nem sempre é fácil explicar o que faço, pois há muitas ideias pré-concebidas e tudo o que é estranho provoca... estranheza.

Tenho coleccionado muitas perguntas sobre o meu trabalho e sobre a filosofia para crianças. Fiz uma lista das dez mais recorrentes – e partilho convosco algumas respostas curtas.

 

 

  1. «Joana, dás aulas de filosofia? »

Não. No sentido convencional e tradicional do termo « aula » = alguém que tem o saber (conteúdos) e os transmite a quem não sabe. Nesse sentido, não dou aulas – ainda que possa falar do espaço e tempo durante o qual a filosofia acontece como aula.

 

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  1. “Joana, então tu és professora?”

Não – no sentido clássico do termo, não sou professora.

Sou facilitadora – ou dificultadora como gosto de lhe chamar. O meu papel é o de “obrigar” a parar para pensar, a aprofundar. Mergulhar no mundo dos pensamentos.

 

 

  1. “Joana, o que tu fazes é pôr as crianças a conversar umas com as outras?”

Não, isso elas já fazem. O meu objectivo é que haja diálogo. Isso implica que se pratique a escuta e o parar para pensar. Além disso, pretendo aprofundar as questões de forma filosófica.

 

 

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  1. “Joana, nessas aulas podemos dizer o que quisermos?”

Sim e não. Podes dizer o que quiseres, mas isso tem que ser submetido ao grupo para avaliar se é pertinente para a discussão em curso.

Além disso, também avaliamos a sua qualidade filosófica – e é aí que eu intervenho mais e dificulto as coisas.

 

  1. “Joana, isso que fazes é um modelo pedagógico?”

Na verdade, a FpC é uma estrutura que facilita processos de aprendizagem. E é algo mais do que isso. Crio um espaço e um tempo em que é fundamental realizar exercícios de cariz filosófico. Sim, a filosofia para crianças transpira intencionalidade filosófica.

 

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  1. “Joana, então basta preparar e ter um plano ou uma planificação, para chegar ao objectivo filosófico?”

Não. A preparação, em jeito de planificação é útil. O mais importante é atender àquilo que as pessoas estão a dizer e captar as suas implicações filosóficas e a riqueza para o diálogo. É fundamental a disponibilidade para o improviso.

 

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  1. “Joana, basicamente o que fazes é treinar pensamento crítico?”

Também. O pensamento crítico é fundamental neste processo. Há outras dimensões: a criatividade, o caring thinking (Lipman) e a dimensão colaborativa (afinal, somos um grupo que se junta para pensar… em conjunto!).

 

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  1. “Joana, não achas que isso é muito difícil para as crianças? É muito abstracto.”

As crianças têm uma linguagem própria e uma experiência que é sua. A FpC abre espaço para que se possam manifestar, à medida da sua linguagem e da sua experiência. A partir daí, extraímos o sumo filosófico.

 

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  1. “Joana, então e tu jogas às cartas com as crianças, é isso?”

Faço jogos, sim. Utilizo muitos recursos que facilmente se associam ao jogo (quantos-queres, jogos de cartas, jogo do galo…). A ideia é partir de um recurso simples e lúdico para o trabalho filosófico. O jogo – tendo elementos físicos, nos quais as crianças podem mexer e até levar para casa – ajuda-me a tornar a filosofia palpável.

 

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  1. “Joana, e as crianças gostam?”

Nem todas. É como a sopa: nem todas gostam, mas nem por isso deixamos de lhes dar sopa. É importante para elas, certo?

Assim é a filosofia: difícil, pois obriga a parar . Divertida, por nos permitir brincar com o pensar. Gosto da imagem da FpC como um ginásio para os músculos do pensamento. E todos nós sabemos como treinar provoca dores, num momento inicial. Depois há que manter a disciplina de treino.

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