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filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de perguntas, para crianças / para pais e filhos | formação para professores e educadores (CCPFC) | #filocri | #filopenpal | #FilosofiaAoVivo

filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de perguntas, para crianças / para pais e filhos | formação para professores e educadores (CCPFC) | #filocri | #filopenpal | #FilosofiaAoVivo

filosofia em tempos de confinamento e de pandemia

- philosophy in times of lockdown and pandemic

hoje partilho mais dois projectos relativos ao tema filosofia em tempos de confinamento. 

[EN] today I'm sharing two projectos related to philosophy in times of lockdown 

 

PhiloQuests

 

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Natalie M. Fletcher escreveu-me um e-mail para me falar do projecto PhiloQuests:

[EN] Natalie M. Fletcher wrote me an e-mail to tell me about this project:

 

"I just wanted to share our own project during lockdown: It’s called PhiloQuests and represents over a hundred free activities in creative reflection, or what we have to come call “philocreation,”, which is Brila’s approach to the P4C model!

It’s a collaboration between Brila and the Université de Montréal."

 

Como hacemos Filosofia para Niñas, Niños y Jóvenes desde casa? 

 

do México chega este vídeo com o testemunho de educadores dedicados à filosofia para crianças e jovens. 

[EN] arriving from Mexico you can listen to educators and P4C facilitators talking about philosophy and lockdown. 

*

o meu pequeno contributo para parar para pensar, em tempos de confinamento, chama-se #FilosofiaAoVivo, e acontece semanalmente no instagram e no twitter. podem saber mais sobre o projecto através deste artigo publicado no P3 (Público).

[EN]

my little contribution to stop an think in lockdown is called #FilosofiaAoVivo. it happens weekly on instagram and twitter. you can learn more about the project by reading this portuguese article published at the newspaper P3 (Público)

 

 

 

filosofia em tempos de confinamento e de pandemia

- philosophy in times of lockdown and pandemic

em março convidei alguns membros do ICPIC (e não só!) para pensarmos a pandemia e publiquei dois artigos com algumas respostas, que podem ler AQUI e AQUI.

desde então tenho assistido a alguns projectos, na área da filosofia aplicada, que têm levado a cabo este trabalho de pensar a partir do confinamento.

hoje vou destacar dois projectos e agradeço que se conhecerem outros projectos do género que me enviem um e-mail para joana@filosofiaparacriancas.pt 

[EN]

in late march I invited the members of ICPIC (and other P4C communities) to think about the pandemic. at the time i published two articles with some of the answers, that you can read HERE and HERE.

since then i've been watching some applied philosophy projects that have been working around the lockdown state of life.

today i will talk about two projects. if you know other projects about philosophy and questioning around lockdown and the pandemic, please write me an e-mail: joana@filosofiaparacriancas.pt

 

BOÉCIO Epistolar

conheço o Jose Barrientos-Rastrojo há muitos anos. se bem penso, foi das primeiras pessoas que conheci na área da filosofia aplicada. tenho acompanhado o seu trabalho de perto e, em vários momentos, tenho tido a oportunidade de participar nalgumas das suas iniciativas, dentro e fora da academia. tive também o privilégio de poder contar com a sua orientação na dissertação do meu 1.º mestrado (gestão de recursos humanos e filosofia aplicada).

José Barrientos Rastrojo, especialista en Filosofía Aplicada, profesor Titular de la Universidad de Sevilla y director del Proyecto I+D+i de Filosofía Aplicada en Prisiones financiado por la Unión Europea, coordina, desde el inicio de confinamiento en España, BOECIO epistolar. Por medio de este proyecto, presos de reclusorios latinoamericanos ofrecen consejos a occidentales confinados de países Europeos y de fuera del continente.

BOECIO epistolar é um projecto que leva a filosofia para dentro das prisões. em temos de confinamento, pensar liberta? fazer questões pode levar-nos para lá das quatro paredes?

em tempos de confinamento, qual é a diferença entre a minha vida e a vida de um prisioneiro?

 

“El encierro no es tan malo como pensamos. Nos ayuda reflexionar sobre lo que somos, [a ser conscientes de que cuando no estamos encerrados] estamos bien, [reflexionar sobre el hecho de] qué debemos cambiar. Asimismo, el aislamiento te debe de impulsar a valorar las cosas [olvidadas]”.

 

 

Auto-entrevistas em confinamento - I wonder - self interview during lockdown

 

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já acompanho o trabalho wonder ponder há uns anos e recomendo MUITO os seus recursos, provocadores e criativos. 

o que são estas auto-entrevistas? 

é um projecto que convida crianças e jovens, entre os 5 e os 18 anos, a fazer perguntas e pensar acerca da pandemia, do confinamento e do impacto que a #covid19pt teve na sua vida.

as entrevistas podem ser escritas, gravadas (audio) ou ilustradas. 

podem participar crianças e jovens de todo o mundo! 

 

In what ways do you think your situation is similar to being in prison?

I am in confinement and if the police catch you outside, they take you back to confinement.

 

*

o meu pequeno contributo para parar para pensar, em tempos de confinamento, chama-se #FilosofiaAoVivo, e acontece semanalmente no instagram e no twitter. podem saber mais sobre o projecto através deste artigo publicado no P3 (Público).

[EN]

my little contribution to stop an think in lockdown is called #FilosofiaAoVivo. it happens weekly on instagram and twitter. you can learn more about the project by reading this portuguese article published at the newspaper P3 (Público)

 

 

 

Ensino online: uma série com várias temporadas

- ode ao trabalhador do ano, por Tatiana Marques

É a segunda vez que a Tatiana Marques "invade" este blog. Sendo um blog dedicado à filosofia e à filosofia para crianças e jovens, é aberto aos tópicos da educação. 

Uma das coisas que a filosofia para crianças me ensinou foi a questão da sensibilidade ao contexto. É nesse sentido que este texto ganha aqui o seu lugar. 

 

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Como mãe tenho assistido a uma série maravilhosa, todos os dias da semana, das 8:25 às 15:50, não na Netflix mas na Real Life. Esta série chama-se ”Ensino online”.

O enredo no início foi assustador, imprevisível, no ano 2020, onde uma pandemia virou o mundo ao contrário. O clímax da série foi quando foi definido o término do ano letivo, o qual exigia uma solução. A meio da segunda temporada, o desenvolvimento da narrativa começa a ter contornos de uma luz ao fundo do túnel e começa-se a ir em direção a um bom porto.

Os coprotagonistas são as nossas crianças e jovens que já não têm a motivação de se levantarem, tomarem um pequeno-almoço saudável, lavarem-se, vestirem-se e irem para a escola se não for o professor a impeli-los mais do que nunca. Os pais já não os conduzem em direção à escola, no sentido físico, dentro de um carro. Mas no sentido moral, mesmo que com algum trânsito, quero acreditar que todos os Encarregados de Educação levam os seus filhos à escola dentro do seu coração. E estamos agradecidos mais do que nunca pela inspiração que os protagonistas desta história - os PROFESSORES têm sido ao conseguirem encaminhar as nossas crianças em direção da secretária, onde passam grande parte do seu dia sentados, virados para um ecrã pequeno e não têm os colegas para descomprimir com um olhar, uma piada ou o recreio para correr, brincar e respirar. Esta personagem principal costumava ser ator dentro de uma sala de aula, em que a sua plateia são mentes muitas vezes ainda inocentes, ávidas para aprender, que gostam de ter o seu mestre de carne e osso em cima do palco. Agora esse ator está numa tela, à distância, com o som muitas vezes destorcido e com uma assistência completamente esgotada (em todos os sentidos). Este novo público, que inclui figurantes, pode fazer todos os julgamentos possíveis porque não está na pele do herói que é o professor.

Quero acreditar que estes figurantes se irão tornar em personagens coadjuvantes, e juntos ajudar a fazer da escola em casa um modelo compatível de ensino.

Até os heróis têm de sair da sua zona de conforto e reinventarem-se perante as adversidades. Vestiram a capa e agarraram-se a novas plataformas para voarem. Aprenderam da noite para o dia novas formas de comunicação, que mais parecem canções para os nossos ouvidos. E descobriram estratégias mais apelativas, construindo asas para levarem os coprotagonistas a voarem consigo também.

Quando os atores saem de cena, tiram a máscara e aí choram. Choram de frustração, choram pelas dificuldades e exigências. Mas choram sobretudo por não ter a razão de ser de toda a sua vocação perto de si. Há uma linha que os separa, neste caso um ecrã.

Já para nem falar que o protagonista desta história ainda tem de lidar com o antagonista. Os professores embora seres excecionais são pessoas comuns que também têm medo do tão afamado Covid-19, têm receio de ficar doentes por si e pelos seus. Este herói que veste a capa todos os dias agora não pode ficar doente. Agora não tem de acordar tão cedo, percorrer uma longa distância, beber o café à pressa e picar o ponto. Mas tem de ter sempre bateria, Wi-Fi, boa luz, voz afinada e energia para se fazer ouvir e ver num quadradinho. Este herói também tem família que se encontra confinada no mesmo espaço onde é agora a escola. A sua família inclui bebés que choram, gatinham sobre os fios do único meio de ligação ou ficam sentados numa cadeirinha tempo demasiado também. A sua família pode incluir dois ou três filhos que precisam igualmente da sua atenção. Inclui jovens que decidem ter música aos altos berros a meio de um Live. Inclui membros familiares que têm lombrigas e a cada meia hora estão a pedir comida. Inclui cônjuges que não entendem porque é que os educadores têm de cantar tanto e falar de forma tão expressiva. Este protagonista também tem pais e sofre por não os poder abraçar. Já para nem falar da casa que não se arruma sozinha, a comida que se tem de fazer pois não podemos almoçar pão ou cereais todos os dias e a roupa pronta para o Take 2.

Faz-se história nesta série e o desfecho acredito que vá ser feliz.

Aplaudo de pé a interpretação destes protagonistas mais desvalorizados deste país.

E neste Dia do Trabalhador, estimados professores dos meus filhos, e de todos os filhos deste país, aproveitem bem este feriado mais do que merecido para se congratularem e acreditarem que se não fosse o vosso trabalho este país parava.

E não parou mesmo.

Obrigada.

 

filosofia para crianças e #covid19pt

- sugestões de enquadramento para pensar a pandemia

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ontem vi esta publicação no facebook, na página Philosophie pour enfants/Philosophy for Children e resolvi partilhar por aqui, com quem procura enquadramento para a #covid19pt, no âmbito da filosofia para crianças (e, permitam-me acrescentar, para jovens, para adultos e por aí fora). 

esta página pertence ao investigador e facilitador de filosofia para crianças, Michel Sasseville, cuja obra "Penser ensemble à l'école" recomendo.

 

 

"(...) o mundo nunca é o mesmo, é sempre outro."

- uma reflexão do Alves Jana

A compressão provocada pela Covid-19 começa a aliviar. Deixo aqui um pequeno contributo com "pistas" para pensar o Pós-Covid. Cada uma delas merecia um tratado. Não é este o lugar para isso. Nem tarefa para uma só pessoa.


O Pós Covid-19
É fácil garantir que o mundo não será o mesmo no Pós Covid-19, porque o mundo nunca é o mesmo, é sempre outro. Mais ainda quando é sujeito a um terramoto como o actual. Por isso mesmo, é previsível que, após o Covid-19, o novo normal não será a repetição do normal anterior. São generalidades que pouco ou nada dizem. Não nos dizem, por exemplo, se o novo normal será perto ou distante do velho normal. Por tudo isso, mesmo sabendo nós pouco e reconhecendo que se trata apenas de uma exploração através do pensamento, fica aqui um pequeno contributo com pistas para o exercício de tentar responder à questão…


Que efeitos terá a Convid-19 no mundo?


A reorganização dos sistemas de produção, comércio e consumo e resultado das novas dinâmicas empresariais (falências, endividamentos, novos agentes, novos produtos…)
Os impactos no sistema financeiro global e nos agentes sectoriais, incluindo os bancos
Complexidade do mundo e a interligação das nossas relações
A evidência da nossa dependência individual: física, emocional…
A importância visível da ciência
A importância da política e dos políticos
A fragilidade da política populista – depende dos resultados
A fragilidade da democracia – depende dos descontentes e da sua susceptibilidade à mobilização populista
A importância da “participação” dos cidadãos
A fragilidade do nosso modelo ou estilo de vida
A fragilidade ou dependência do sistema económico (ele não é tudo)
O valor da prevenção, do controlo dos processos sociais
A importância do SNS
A relevância social dos comportamentos individuais
A redescoberta (?) do social no bem-estar individual
A importância da prospectiva e da gestão do futuro
A reavaliação pessoal e colectiva do essencial e do acessório
Os efeitos – no trabalho, nas compras, na informação, no entretenimento – das novas competências digitais e dos hábitos adquiridos no mundo digital
A revelação da importância da matemática como ferramenta decisiva no conhecimento, decisão, acção e avaliação dos processos
O novo papel da China e dos EUA, bem como da Europa
Os efeitos políticos na liderança dos EUA e do Brasil, por exemplo, que não serão indiferentes à evolução da pandemia nos respectivos países
A percepção da fragilidade do nosso estilo ou modo de vida
A fragilidade das cidades e as possibilidades do mundo rural como alternativa
A experiência vivida da responsabilidade individual no bem-estar colectivo
A classificação (até à disseminação da vacina) dos mais velhos como grupo de risco
O novo golpe na Providência, no Destino, e o reforço do poder da acção eficaz
A experiência vivida da importância dos afectos, do toque físico, do contacto presencial e do seu inverso, a solidão
A revelação de que somos presas fáceis do medo e de que só estamos disponíveis para mudar sob a força do medo
A reafirmação do poder da Natureza sobre o curso dos acontecimentos
A evidência experimentada entre o desejo e a realidade e a importância de ter em conta a realidade para conseguir conquistar o desejado
A experiência do tempo longo, distendido, mas também do valor do movimento e da agitação
A redescoberta da importância de fazer parte, estar incluído, ser tido em conta
A revalorização do papel objectivo e da importância da comunidade
A evidência de que Wuhan é aqui ao lado e a reorganização da percepção do espaço global
O alerta agora talvez percebido para outros contágios: esta pandemia não é a última nem a mais perigosa; há outras epidemias que merecem atenção (da vinha, do pinheiro, da oliveira…)
A revalorização do gesto simbólico (o papa sozinho na Praça de S. Pedro ou as palmas no hospital à saída de um recuperado…)
A forma como os líderes e as organizações vão reagir às avaliações das medidas adoptadas, que nunca são perfeitas nem indiscutíveis
A nova normalidade não existe como um dado prévio, mas existirá como resultado da acção das várias forças intervenientes. E já sabemos quais são as principais forças capazes de dar forma ao futuro: o conhecimento, a organização e o dinheiro.

 

- o Alves Jana partilhou esta reflexão no facebook. pedi-lhe para publicar aqui, pois considero que pode ser um bom ponto de partida para muitos de nós reflectirmos sobre esse mundo novo que aí vem (que já está no meio de nós?).

Aforismos filosóficos em tempos de quarentena: vozes da infância

- em português e em espanhol -

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Construir aforismos é a arte de expressar pensamentos profundos com o mínimo de palavras possível.

O desafio é pensar em quarentena a partir das palavras que propomos, para que você possa contar ao mundo suas idéias, sentimentos e desejos."

 

podem aceder a este desafio filosófico em Português e em Espanhol.

 

"O caso é que a pandemia suspendeu o normal."

- uma reflexão de Walter Kohan

Na última aula do curso Em Defesa da Sociedade, no Collège de France, no dia 17 de março de 1976, exatamente uma semana antes de mais terrível Golpe de Estado na Argentina que semana passada fez 44 anos, Michel Foucault descrevia o trânsito do poder da soberania ao biopoder como um trânsito do “fazer morrer e deixar viver” a um “fazer viver e deixar morrer” (FOUCAULT, 2006, p. 285ss.). O trânsito supõe, por um lado, uma espécie de privatização da morte; por outro, uma intervenção cada vez mais forte nas maneiras de viver, no como se vive, da população europeia. Com a expansão do capitalismo a escala planetária, essa tecnologia de poder sobre a vida da população se expande e torna mais precisa: ela é, ao mesmo tempo, uma forma de vida e uma forma de intervenção sobre a vida, uma espécie de dispositivo de capitalização da vida em praticamente todos os rincões do planeta. Em certo sentido, também intervém sobre a morte, como fica evidente na atual pandemia de COVID-19 na Itália do norte: é preferível salvar os que tem mais vida capitalizável e deixar morrer os mais velhinhos, improdutivos, apenas um “custo” para os sistemas. Nessa lógica, a pandemia é uma oportunidade de limpar o sistema de vidas improdutivas e onerosas e, assim, otimizá-lo. De fazer viver ao produtivo e deixar morrer ao improdutivo, mais do que nunca. Talvez isso esteja na cabeça da política genocida de Bolsonaro e sua trupe contra o isolamento social e a favor de que a economia não pare: uma “limpeza” social.

Nessa mesma Itália desenvolvida, nas condições atuais de confinamento, o que prima, diz Agamben, é a morte e a vida nuas. A morte reduzida a si mesma: a dos seres queridos sem sequer um funeral ou um enterro, a pura morte, o corpo largado no corredor do hospital ou no féretro nos caminhões do exército à busca do fogo que o faça ocupar o menor lugar possível. A vida também fica reduzida a sua forma mais nua: trata-se de preservar a vida antes de mais nada, sobreviver a qualquer preço, sacrificando tudo a não ser a própria vida: as relações sociais, a amizade, os afetos, a vida pública e comum. Tudo pode se perder, menos a vida. Mas a vida que se salva é uma vida sem nada, confinada, dobrada até ela mesma e nada mais. Enquanto o medo não deixa pensar senão na própria sobrevivência, a vida fica nua do que lhe outorga sentido. Salvam-se, em primeiro lugar, as vidas que poderão voltar a ser produtivas, capitalizadas, aproveitadas pelo sistema despojadas já do que as torna esta e não outra vida. São apenas vidas nuas, a-nudadas ao sistema de produção.

É verdade, o atual momento é assustador. A epidemia do covid-19 deixa mortes e mais mortes. Mas o que assusta não é só o vírus quanto os modos de vida que estão sendo, ainda mais, afetados e confinados, mesmo aqueles não afetados pelo vírus. O que mais assusta é a perspectiva de que tudo no combate ao vírus é feito em nome do retorno ao normal e que o separador de águas entre a forma que os governos respondem à pandemia é justamente o caminho para voltar ao normal, seja mantendo ele a qualquer preço - como nos casos mais irresponsáveis e criminais, como Trump e Bolsonaro, mas também mais sofisticados como Suécia - ou extremando o confinamento para um enfrentamento mais eficaz ao vírus que permita uma volta menos traumática ao normal. O Brasil é um caso especial pela idiotice e irresponsabilidade do seu presidente e do grupo em torno dele que fará que o normal se leve consigo muitas vidas desprotegidas e descuidadas. A questão não é nova, é verdade, mas a brutalidade e sarcasmo da cena atual é exageradamente patética.

O caso é que a pandemia suspendeu o normal. O capital já não circula tão comodamente. O sistema está parado, pelo menos parcialmente. E se bem é verdade que mesmo com essa parada as condições de vida continuam igual o pior para uma enorme parcela da população mundial – e brasileira em particular -, não é menos verdade que o caminho da destruição do planeta está em parte em suspenso. Com o vírus atingindo os humanos e seu sistema de exploração planetária, o planeta está ganhando um pouco de ar. Se isto continuar por algumas semanas até a Bahia de Guanabara vai poder respirar. Mas não só o planeta: nós mesmos podemos respirar outros ares. E eis que a pandemia se torna uma oportunidade para outra vida e para outro mundo, para outras formas de vida no mundo, para respirar um outro ar.

Eis o desafio maior: essas outras formas de vida precisam ser inventadas, pensadas e experimentadas em comum. As instituições educativas poderiam ser um espaço propício e elas estão no meio da pandemia. Nos países em que o capitalismo está mais solidamente inscrito nas instituições, o sistema não pára e a vida educacional continua on-line em todas suas formas: aulas, bancas, formaturas, reuniões, comunidades de investigação filosófica. Nada pode parar. É preciso seguir o normal. As condições pioraram para os que nelas trabalham. As pessoas têm até menos tempo livre que o habitual. Já entre nós, que trabalhamos na educação pública, diferentemente, o vírus tem nos entregado a oportunidade de um tempo para pensar na vida que estamos vivendo em nome da educação, dentro e fora dessas instituições. Em que pese a idiotice e irresponsabilidade antiéticas do presidente, estamos em casa, como suspendidos no tempo. Estávamos habituados a “não ter tempo”, ao ter tanto para fazer “em pouco tempo”, em ter que correr daqui para lá, em “perder horas” no trânsito, em ocupar o tempo em exigências administrativas e burocráticas e, de repente, temos tempo para ordenar a casa, assistir filmes, dedicar atenção ao esquecido e, sobretudo, tempo para pensar na vida que queremos viver depois que a pandemia passar. É verdade, ainda não podemos pensar com o cuidado e a atenção requeridas; estamos desabituados, sentimo-nos engatinhando... não desistimos... encontramo-nos de outras formas... seguimos tentando... entre todes conseguiremos... aproveitar a oportunidade que o vírus com seu efeito de suspensão nos oferece... uma oportunidade impensada, única, ímpar... vamos continuar tentando?

walter kohan, 29/03/2020

filosofia em tempos de pandemia

- filosofia e filosofia para crianças e jovens

durante a semana passada partilhei algumas perguntas com investigadores, pensadores e filósofos sobre os tempos pandémicos que vivemos. algumas dessas perguntas referiam-se especificamente à filosofia para crianças. 

Walter Omar Kohan, Tomás Magalhães Carneiro, Jose Barrientos Rastrojo e Gabriela Castro partilharam as suas respostas através de um google form: em tempos de distanciamento físico, são os inúmeros recursos digitais que nos aproximam. 

 

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Nestas alturas, a filosofia pode servir de consolo? Porquê?

"Não gosto da palavra consolo. A filosofia pode ajudar em muitas outras coisas, por exemplo, a dar sentido ao momento.", diz-nos Walter Kohan. 
Na mesma linha, Tomás Magalhães Carneiro, professor de filosofia com crianças, defende que 
"se a filosofia tiver de chegar a servir de consolo, de alívio, já chegou tarde demais e aí não poderá servir de consolo. A filosofia deve preparar-nos para sermos capazes de evitar a necessidade de consolo. Não havia ninguém a consolar Sócrates quando este bebeu a cicuta. Ele é que consolou quem estava à sua volta."
 
"A pergunta é se a filosofia devia servir como consolo. Se o consolo é efectivo, poderia ocultar a crise e fazer com que voltemos para a vida anterior; mas não seria bom não consolar, deixar que a crise continue aberta e nos leve para o questionamento de partes do sistema. Provavelmente, algumas filosofias podem servir para consolar, mas repito: isso seria bom em todos os casos?" - eis a interrogação que nos deixa Barrientos Rastrojo. 
 

Por sua vez, Gabriela Castro não hesita: "A resposta é indubitavelmente SIM. Porque o ser humano é holisticamente pensante e pensador e o pensar sempre ajudou a humanidade a colocar a realidade em perspectiva e a propor soluções reais." E acrescenta, com algum humor qual seria a  resposta de alguém que não estuda filosofia:  "se a filosofia não serve para mais nada talvez sirva para pensar a pandemia".  

 

Têm alguma sugestão de temas ou de exercícios para permitir às crianças pensar sobre o que está a acontecer?

"De momento não trabalho com crianças, mas criámos um projecto com presos (Boecio epistolar) que poderia ser trabalhado com crianças. Eles podem escrever cartas para serem enviadas para crianças de México (onde vai o começar a crise) com os seus conselhos para superar a situação." (Jose Barrientos Rastrojo)

Gabriela Castro pede cautela nestas sugestões: "porque fazer isso sozinhas será desvirtuar a própria FpC. Vamos a ter calma e a sabermos o que estamos a fazer sob pena de ser maior o estrago do que o proveito."

Walter Kohan remete para o livro Alice no País das Maravilhas como provocação para o pensar, em família. 

Por último, Tomás Magalhães Carneiro defende que:

"Temos aqui uma boa oportunidade de espalhar um pouco mais o "vírus da filosofia". Acho que os exercícios e temas que costumamos utilizar nas nossas aulas [de filosofia para/com crianças] são adequados. Apenas ressalvo a importância de os adequarmos aos pais e às famílias dando-lhes directrizes de como os aplicar, como deverão dar espaço às crianças para pensarem em vez de encher esse espaço com as suas próprias ideias. O nosso papel, agora que estamos longe dos nossos alunos, deverá ser o de orientar os pais a serem também eles moderadores socráticos. São eles que estão "forçados" a estar com os seus filhos mais tempo do que é costume e muitos quererão aproveitar esses momentos para aprofundar ideias e conversas. a Filosofia aí pode ajudar, ou não fosse isso que andamos a fazer há mais de 2000 anos, a conversar uns com os outros."

 

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O que estão a ler os nossos entrevistados? E o que recomendam como leitura "pandémica"?

O Tomás está  a ler e recomenda "How to be a Stoic: Ancient Wisdom for Modern Times" do Massimo Pigliucci. A Gabriela lê Paul Ricoeur para preparar as suas aulas que acontecem via zoom.

Jose Barientos Rastrojo recomenda os textos de Séneca e de Marco Aurélio, advertindo que nem sempre têm um efeito tranquilizante. O professor da Universidade de Sevilha encontra-se a ler Han (O aroma do tempo), Grimes (Philosophical Midwifery) e Carlson (O sentido do asombro), livros que  ajudam a aprofundar  sobre a realidade profunda.

Walter Kohan recomenda o clássico Alice no País das Maravilhas. 

 

*

No blog Joana Rita ponto EU podem ler o artigo "Is living a pandemic quite different from thinking about the pandemic?", com o contributo de outros pensadores e investigadores. Boas leituras! 

 

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