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filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de filosofia e de criatividade, para crianças, jovens e adultos / formação para professores e educadores (CCPFC) / mediação da leitura e do diálogo / cafés filosóficos / #filocri

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Quem disse?

joana rita sousa, 10.09.20

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Quem disse? é, à primeira vista, uma pergunta rebelde, feita por alguém que procura questionar uma regra ou uma fala instituída por alguém. noutro contexto, é uma pergunta que faço algumas vezes no sentido de averiguar a origem ou a fonte de quem diz que ouviu X ou leu Y. 

o livro Quem disse? (de Caroline Arcari e Guilherme Lira, editado no Brasil pela Caqui) tem um enquadramento específico, o da educação sexual. podemos ler na ficha técnica que "os conteúdos estão alinhados à legislação brasileira que protege crianças e adolescentes." a editora Caqui pretende intervir na área da "educação sexual, dos feminismos, masculinidades positivas e alternativas, violência de género, educação não-machista, anti racismo e prevenção contra as violências sexuais."  este é um livro com uma intencionalidade de abrir o diálogo, de questionar ideias feitas sobre certos temas.

 

podemos levar este livro para uma oficina de filosofia para crianças?

sim, podemos. trata-se de um livro que toca nalguns dos pontos mais cristalizados da nossa sociedade, como o "quem disse, Lelê, que menino não brinca de ser pai de um bebê?"

e o azul, é uma cor só de meninos? e o rosa? e a cozinha é o lugar de quem? 

o livro aponta para um mundo que é azul, que é rosa e que é de todas as cores. abre possibilidades, abre espaço para pensar nos "quem disse?" desta vida, das regras, do "faz isto" e do "não faças aquilo" que interiorizamos e que não colocamos em causa.

trata-se de um livro que amplia para a diversidade e, se há uma mensagem que está presente no livro, é "não existe padrão". 

 

sugestão de trabalho a partir do livro "quem disse?"

como trabalhar este livro em sala? eis a minha sugestão, passo a passo:

- leitura partilhada do livro;

- no final da leitura dar algum tempo para pensar sobre o que ouvimos;

- perguntar às pessoas em sala se têm alguma pergunta ou se quem comentar alguma coisa do livro (este é um bom momento para treinar a diferença entre perguntar e dizer uma coisa);

- registar as perguntas e comentários de todos, num papel ou no quadro, para que todos possam ver (se estivermos em aula online, utilize um documento partilhado ou uma opção de power point em modo de edição);

- pergunta se alguém já tinha ouvido algumas das ideias presentes no livro; por exemplo, que os meninos não usam cabelo comprido. será que sabemos dizer quem disse isso? e qual será a razão para o dizer?

- seguindo este exemplo, podemos avançar para pensar qual é a diferença entre um menino de cabelo comprido e um menino de cabelo curto? o que diz o tamanho do cabelo? quem na sala gostaria de ter cabelo comprido? quem gostaria de ter cabelo curto?

 

esta proposta pretende criar espaço para pensar

1) o que pode levar a alguém a dizer (x ou y)

e 2) se isso que diz tem sentido e se é suportado por razões válidas. 

 

sobre a faixa etária e o trabalho em sala, com a educadora ou com o educador

sobre a faixa etária: note que na descrição da sugestão de trabalho escrevo "pessoas" e não crianças ou jovens. o motivo? este livro poderá ser apresentado a diferentes grupos etários. consigo pensar em grupos com 5 e 6 anos com os quais já trabalhei junto dos quais haveria interesse e pertinência em abordar esta temática. note-se que não chegamos para o grupo a dizer: vamos trabalhar um tema da educação sexual! simplesmente, abordamos o livro como qualquer outro. 

no caso do jardim de infância e do 1.º ciclo e assumindo o papel que normalmente desempenho (o de professora externa que visita a sala para fazer acontecer a filosofia) julgo que será pertinente a partilha prévia do livro com a educadora ou com o educador. às vezes também os adultos precisam questionar os quem disse, pois também os perpetuam, tantas vezes de modo inconsciente.

o trabalho em parceria com a educadora ou com o educador da sala é algo que estimo e que procuro praticar. o trabalho de reflexão filosófica conduz-nos a um olhar diferente sobre aquilo que vemos todos os dias e, de repente, podemos ter um menino a perguntar a razão pela qual a sua bata é azul e a da Catarina é rosa. e esta pergunta pode muito bem acontecer num momento que não é o da oficina de filosofia e daí ser tão importante o trabalho partilhado com a educadora ou com o educador. 

a meu ver, trabalhar temas como a educação sexual em sala, com crianças, jovens e adultos, tem toda a pertinência e exige preparação, integração e uma sensibilização junto de todos os agentes educativos. a escola não é aquilo que acontece da porta para dentro; a escola somos todos nós: educadores, pais, avós, tios, vizinhos.

se nas oficinas de filosofia abordamos o sentido da vida, também podemos falar do sentido que tem dizer que um menino não pode usar cabelo comprido.  

 

 

 

Quem disse? /  Carolina Arcari  e Guilherme Lira / Editora Caqui