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filocriatividade | filosofia e criatividade

oficinas de filosofia e de criatividade, para crianças, jovens e adultos / formação para professores e educadores (CCPFC) / mediação da leitura e do diálogo / cafés filosóficos / #filocri

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Da (in)Utilidade da Filosofia

- reflexão do Alves Jana, a propósito da #RodaDaFilosofia

joana rita sousa, 08.09.20

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Confesso: não consigo perceber a afirmação, hoje, da “inutilidade da filosofia”. Creio que, pelo menos um pouco, percebo o que os seus autores querem dizer. Por exemplo, que a filosofia não pode ser colocada ao mesmo nível das coisas instrumentalmente úteis, pois “vale por si mesma”, que a filosofia não pode ser confundida com a utilidades reduzidas ao seu valor económico-financeiro.

Numa perspectiva filosófica, pelo menos socrática, a questão devia ser iniciada pela definição do que se entende por útil e inútil. O significado de útil, segundo do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é «Que é necessário; que tem préstimo ou utilidade; proveitoso; vantajoso» e utilidade é, pela mesma fonte, «Qualidade de útil / Préstimo; vantagem; serventia / Pessoa ou objecto útil». Sendo assim, afirmar a inutilidade da filosofia implica negar que tenha qualquer préstimo, vantagem ou serventia, que traga qualquer proveito ou vantagem. Será mesmo verdade?
Contudo, também sabemos que uma das tarefas dos filósofos é revolucionar o significado das palavras.

Essa poderia ser uma alternativa à afirmação da inutilidade da filosofia.
Vale a pena sondar o que “faz” a afirmação da inutilidade da filosofia.
Em primeiro lugar, confirma os significados de que se quer afastar: útil é só e apenas o que tem valor económico ou instrumental, etc., não há alternativa a esse significado.
Depois, num mundo em que “útil” tem esse significado, que a tese confirma, afirmar que a filosofia é inútil é lançá-la no caixote do lixo desse mundo, é dar força àqueles que querem banir a filosofia dos centros de custos (agora com o acordo dos filósofos). Não me parece boa política, muito menos boa defesa do lugar da filosofia na cidade dos homens e mulheres. É importante não esquecer que o significado de um acto de comunicação não se estabelece na emissão, mas na recepção. Se eu afirmo a inutilidade da filosofia, muitos esfregarão as mãos de contentamento.
Além disso, resta saber se essa tese é validada na vida, isto é, se a inutilidade da filosofia é confirmada por aqueles que a praticam, que se encontram com ela, que alimentam as suas práticas intelectuais e de vida com a reflexão filosófica.


O que a vida nos mostra é que a tese da inutilidade da vida é sobretudo conveniente (e por isso defendida) por aqueles que a temem. A História mostra-nos: a filosofia enquanto prática é uma actividade perigosa.


Sócrates foi condenado à morte, Platão vendido duas vezes como escravo, Descartes teve de fugir, Espinosa viu-se banido pelos seus (e a lista pode continuar até hoje). Os regimes autoritários são muito cuidadosos contra a filosofia. Por causa da inutilidade da filosofia ou pela sua perigosidade? Mas, se é este o caso, então a filosofia tem préstimo, valor, serventia, utilidade... contra a qual eles se acautelam.


Sem medos: a filosofia serve para viver melhor, para compreender melhor aquilo que se faz (por exemplo ciência ou política), para esclarecer e redefinir valores e significados, para lutar contra o velho instaurando o novo... A filosofia (tal como a arte e a religião) cria o mundo: se um filósofo faz um trabalho profundo, o seu mundo – e o nosso – fica outro. E ainda: a grande actividade da filosofia é definir e recriar a gramática do pensamento. Foi isso que fizeram Tales de Mileto, Sócrates Platão e Aristóteles, Descartes, Hegel, Nietzsche, Ricoeur, entre muitos outros (ou todos?).


A ciência diz-nos como o mundo é; a filosofia (tal como a religião e a arte) diz-nos que mundo queremos. Há alguma coisa mais útil na vida que sabermos o que queremos? Tanto a nível individual como colectivo. Quando delegamos na ciência a definição do que deve ser, temos uma distopia – um mundo muito técnico e científico mas nada humano. A filosofia (tal como a religião e a arte) tem a tarefa de defender e recriar o humano. Que actividade tem maior utilidade? É claro que há muitos que não lhe reconhecem nenhuma utilidade, antes pelo contrário. E o que mais espanta é que os filósofos estejam alinhados com eles!...


O desafio é totalmente o inverso: afirmar a filosofia como da maior importância e utilidade (caso aqui os dois conceitos de modo consciente). Não tanto com argumentações: a filosofia é muito útil, bla, bla, bla... (Não por acaso, não é por esta via que se afirmam a religião e a arte.)
O valor, importância, utilidade da filosofia afirmam-se através da experiência vivida. Quem – pessoa ou comunidade – viu a sua vida transformada para melhor pela filosofia não precisa de argumentos que a defendam. A afirmação da inutilidade da filosofia é um último (?) acto daqueles que mataram a filosofia tornando-a inócua, inofensiva, inactiva (como um vírus), académica no pior dos sentidos. Sim, quem vai defender a utilidade desta filosofia? Só “serve” para obter um canudo e um emprego numa escola.


Qual é o lugar da filosofia na cidade dos homens e mulheres que somos? Como é que ela é aí vista pelos outros? («A filosofia é a ciência com a qual e sem a qual se fica tal e qual.» Onde é que eu já ouvi isto?)


Se há uma tarefa importante para a filosofia – e para os que praticam a filosofia – é uma presença activa e marcante, na vida das pessoas, na escola ou na empresa como organização, na cidade como comunidade de vida. É aí – justamente aí – que há um trabalho a fazer. Difícil, perigoso, esquecido, mas necessário. Necessário também quer dizer útil, digo eu.
Nada do que fica dito contradiz o papel fundamental de uma Academia a trabalhar de modo excelente, técnica e filosoficamente qualificada. Ela é, em última análise, a imprescindível guardiã do património filosófico da humanidade e a última instância de formação de filósofos capazes. (Sem qualquer sentido de desvalorização para os que praticam filosofia sem título académico em filosofia.)


A questão da utilidade da filosofia faz-me lembrar um episódio que se passou comigo. A professora de matemática a operar num curso de jornalismo pediu-me que a ajudasse a explicar aos seus alunos a utilidade que a matemática poderia ter para eles, pois eles rejeitavam a matemática porque, diziam, “não servia para nada”. A ignorância e a lei do menor esforço davam ali melhor serventia que o poder da matemática. Outro episódio, passado também comigo. Num país africano, os professores de Direito lamentavam-se pelo facto de os políticos do país não reconhecerem a importância (não diziam “utilidade”) do Direito. Antes pelo contrário, diziam eles. Não percebiam que esse “facto” era justamente a confirmação da importância do Direito. Eles, os políticos, queriam um país liberto das amarras do Direito para poderem fazer o que muito bem queriam: os sucessivos golpes de estado, as apropriações privadas dos recursos públicos, a exploração livre dos recursos naturais, os vários tráficos ilegais...
Quanto mais inútil, e ausente, for a filosofia, mais o mundo pode seguir o seu curso sem sobressaltos.

 

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Dos níveis do conhecimento


Um dia, não há muito tempo, li a afirmação por um pseudo-filósofo (digo eu) de que “Não é possível ensinar a pensar, porque todos nós já pensamos”. Parece brilhante, perece uma verdade evidente, mas não é verdade.


É verdade que todos nós respiramos, andamos, falamos... mas precisamos de aprender a respirar, a andar, a falar... se formos para o teatro, se quisermos desfilar na passerelle, se precisarmos de falar em público. E todos nós temos emoções, naturalmente, mas a inteligência emocional permite-nos viver as emoções de um modo melhor – melhor para si e melhor para os outros.
Todos nós pensamos, mas também todos nós precisamos de melhorar a forma de pensar. E alguns precisam de melhorar muito, porque, bem vistas as coisas, não pensam, apenas dizem coisas que andam por aí pensadas por outros. E, na maioria das vezes, quando falam começam por dizer “Na minha opinião muito pessoal...” e depois mostram que não pensam, apenas reproduzem falas normalmente indigentes.


A filosofia é, entre outras disciplinas, um caminho para melhorar o modo de pensar. Mais uma vez: foi isso que fizeram Tales de Mileto, Sócrates Platão e Aristóteles, Descartes, Hegel, Nietzsche, Ricoeur, entre muitos outros (ou todos?). Um dos grande trabalhos da filosofia é reformular a gramática do pensamento, ou seja, as regras a partir das quais pensamos.

 

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Também todos nós sabemos contar: um, dois, três, e muitos. Se eu entrar num restaurante e olhar para as mesas, é isso que de imediato vejo. (Alguns, os melhores, conseguem ir até cinco.) Se quiser saber quantos lugares tem uma mesa de dez, tenho de contá-los. A matemática ensina-nos a pensar as quantidades com mais poder de cálculo: chegamos a pensar em termos de infinito e a operar de modos muito sofisticados. Só um exemplo: quando é que foi possível operar com o cálculo infinitesimal? Quando é que Gödel nos ensinou que é inútil (sim: inútil) procurarmos um sistema auto-fundado? Quando é que fomos ensinados a pensar o caos físico-matemático? A generalidade das pessoas ainda tem muita dificuldade em pensar de modo estatístico e mais ainda em termos probabilísticos. Ou seja, a generalidade das pessoas ainda pensa... segundo uma gramática lógico-matemática anterior ao século XVII e XVIII.

- Mas isso pode ser factor de exclusão de muita gente! Quem é que define quem pensa melhor e pior?


Sim, pode ser factor de exclusão de muita gente. Tal como o foi a invenção da escrita. Ainda hoje há milhões de pessoas excluídas desse poder que é a literacia. (Ainda hoje há povos que só contam um, dois, três, e muitos.) Vamos recusar a escrita (e o cálculo)? Ou vamos dar às pessoas excluídas o poder da escrita (e o do cálculo)? E o da literacia digital, e emocional, e financeira...
Sim, a distinção entre pensar melhor e menos bem pode ser usada para excluir (“Quantos mais, melhor”, dirão alguns), dos privilégios do pensar com mais poder. Porque pensar melhor é pensar com maior poder de resolução dos problemas que se enfrentam através do pensamento. Mas tal distinção também pode ser feita para ajudar a pensar melhor todos aqueles que pensam. Esse é o desafio, digo eu.


Porque a questão não é “tu pensas mal, só pensarás bem quando pensares como eu”, mas “tu podes pensar melhor amanhã do que pensas hoje” e “colectivamente, precisamos de pensar melhor os problemas que precisamos de resolver ou pelo menos minorar”. Um exemplo: muitos inocentes têm sido injustiçados, por vezes com a pena capital, por os juízes não pensarem com a qualidade a que estão obrigados. Só um outro exemplo: muitas crianças e jovens, sobretudo das classes mais desfavorecidas, é claro, têm sido humilhados e massacrados na escola porque os professores não pensam a sua actividade como deviam.

O pensamento, feito acção, faz o mundo que vivemos. O pensamento natural, herdado biologicamente, dá- nos um mundo próximo dos outros primatas superiores. Um mundo humano precisa de um “programa” superior capaz de gerar o que a biologia não nos dá. Um mundo mais humano precisa de um programa melhor capaz de gerar um mundo melhor. São a religião, a arte e a filosofia que moldam o pensamento e a acção de modo a darem forma ao mundo. O mundo humano não nasce de geração espontânea, nem por mero resultado da genética.
Os vários mundos não se equivalem. Os vários pensamentos não se equivalem.
Parece-me um problemático sintoma do nosso tempo a incapacidade de distinguir e afirmar diferentes valores para pensamentos diferentes.


Por exemplo. “O homem é superior à mulher”, “a mulher é superior ao homem” e “o homem e a mulher são iguais” (em dignidade e direitos) são afirmações equivalentes do ponto de vista formal, mas com elas produzem-se mundos muito diferentes.
Racismo, xenofobia, machismo, a escravatura, economicismo são formas sociais e políticas configuradas a partir de pensamentos diferentes. Uma sociedade que exclui os deficientes não se equivale a outra que os inclui. Era uma vez «uma aldeia em que as crianças que nasciam cegas eram levadas para o mato e abandonadas»: não é ficção, é uma realidade sociocultural concreta povos que têm nome. A proposta de que os deficientes, os homossexuais, ah, e os judeus deviam ser eliminados fez história, e ainda não desistiu de fazê-la. A proposta de que os doentes de Alzhaimer não têm direito a viver pelo que custam à comunidade em recurso é defendida por uma filósofa moralista do Norte da Europa. Nesta pandemia em curso, houve países que abandonaram os infectados ou alguns tipos de infectados, como os idosos, à morte, por desnecessários. E não há dúvida de que esta pandemia tem sido muito útil – sim, útil – para “limpar” a sociedade de uma parte significativa da “escória” que a contamina: velhos, pobres, doentes...


Um pensamento que não consegue perceber e afirmar a diferença de valor de diferentes pensamentos... desistiu de pensar, ou pensa mal. Digo eu, é claro. Como seria um pensamento matemático que não é capaz de afirmar a diferença entre uma conta certa e uma errada? Ou uma formação médica incapaz de distinguir um diagnóstico errado de um certo, ou...


- Bem, mas isso tem a ver com factos.


E diferentes pensamentos também têm a ver com factos: os factos que geram, o mundo que produzem. E não é necessário lembrar que até os factos hoje perderam valor: factos e invenções, verdade e mentira equivalem-se em vários tipos de pensamento. E, curiosamente, de arte: abundam os livros em que factos históricos e ficção convivem em harmonia estética. Até a ciência, hoje, equivale a tudo e vale nada.

Enquanto escrevo, a rádio da minha terra, onde colaboro como voluntário, transmite um programa que nos dá a ouvir os álbuns mais vendidos na década de 80. E ouço, dos Pink Floyd:

“We don't need no education /

We don't need no thought control /

(...) Hey, teachers, leave them kids alone”

(Em tradução livre: “Nós não precisamos de educação / Não precisamos de controlo do pensamento / Hei, profs., deixem os putos em paz”.)

Não sei se esta canção, que se nos entranhou na alma, é causa ou consequência ou sintoma ou tudo isto de um modo de estar no mundo, de fazer cidade, que... como tudo o que é humano, tem sombras e tem luzes, que importa distinguir.


É imprescindível afirmar que nem todos os pensamentos se equivalem. É até imprescindível levar isso mesmo às suas consequências: a exclusão de certos tipos de pensamentos – e de acções por eles gerados. Na sociedade geral, na empresa, na escola, na família. Sim, na família.
É de excluir um tipo de pensamento do pai que diz perante um filho homossexual “Preferia ver um filho morto que ter um filho maricas”. Ou o de uma avó que declara abertamente perante os netos que gosta mais de um que dos outros. E na escola “para todos”, que tipo de pensamento por parte dos professores deve ser excluído?


Vivemos um pensamento mole, incapaz de distinguir o que é distinto. No entanto, já Aristóteles nos tentou ensinar, há muito tempo, que nem todos os pensamentos se equivalem, tanto do ponto de vista lógico como do ponto de vista ético e político.


Tudo isto nasce, digo eu, da nossa indisponibilidade – filosófica e política (não há filosofia sem política) – para afirmar e distinguir diferentes valores do que, de facto, vale diferentemente. Por uma boa razão, mas operada de modo errado (digo eu).


A boa razão é que queremos incluir todas as pessoas. Pessoas! Mas acabamos por incluir todas as formas de pensar. Esquecendo que as várias formas de pensar se excluem lógica e automaticamente: a ditadura exclui a democracia; o supremacismo branco exclui a igualdade perante a lei; a igualdade entre homem e mulher exclui o machismo; a democracia exclui o racismo institucionalizado; os direitos humanos excluem o massacre a que os mais pobres têm sido sujeitos na escola ao longo dos tempos e dos países.
Excluir é fácil e é natural, humanamente natural, passe o erro lógico, pois nada do que é humano é natural. O que é difícil é incluir. E mais difícil ainda é excluir incluindo. Como?

 

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Bom, o racismo é de excluir, defendem muitos, mas não todos. A verdade, porém, é que tanto o racista, como a vítima do racista são vítimas de um sistema racista, colonial, etc. São ambos vítimas, mas não são vítimas simétricas, equivalentes. O racista é carrasco, o outro não é. Como é que somos capazes de combater o racismo, sem “matar” o racista? Como é que conseguimos libertar do racismo tanto a vítima do racismo como o racista? Ou libertar o filho homossexual e o pai que tem horror aos homossexuais?


Incluir de modo indiferenciado é incluir também o pensamento excludente, é dar-lhe direito de cidadania e oportunidade de se afirmar... e excluir quem e o que não lhe interessa. Este incluir acaba na exclusão de si mesmo e de muitos outros. É incluir sem diferenciar. Mas diferenciar também pode ser prepotência. Por isso é necessário que o pensar se mantenha permanentemente alerta.


Na filosofia, devemos (digo eu) defender a diferença de valores entre vários tipos e formas de pensar, mas sem excluir as pessoas que, pelo seu percurso e pelo seu contexto, pensam que todos os pensamentos ou formas de pensamento se equivalem. É possível excluir formas de pensamento sem excluir as pessoas que as pensam. E estas também trazem consigo alguma parte da verdade – conceito que hoje foi banido do pensamento, evidentemente com consequências.


O objectivo filosófico, neste campo, é cada um de nós, a começar por “mim”, sejamos capazes de viver segundo o mantra: ser capaz de pensar hoje melhor que ontem e amanhã melhor que hoje. E, tanto quanto possível, numa procura partilhada.
Como numa roda da filosofia. Não por acaso, uma roda da filosofia exclui a relação autoritária do mestre sobre o ignorante. Na roda da filosofia, todos são mestres e aprendizes. Todos valem o mesmo como pessoas. Mas, se têm algo a aprender, é porque...


Abrantes, 6 de Setembro de 2020
José Alves Jana