Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

filocriatiVIDAde | filosofia e criatividade

oficinas de perguntas, para crianças / para pais e filhos | formação para professores e educadores (CCPFC) | #filocri | #filopenpal

filocriatiVIDAde | filosofia e criatividade

oficinas de perguntas, para crianças / para pais e filhos | formação para professores e educadores (CCPFC) | #filocri | #filopenpal

Assim assim, talvez, depende ou mais ou menos. E o sim ou não, de Diógenes.

Os dias quentes chegaram à aldeia. Finalmente, diga-se de passagem. Já tínhamos saudades do calor e, sobretudo, das noites quentes. Como dizia um amigo, o Pedro, o bom dos dias de muito calor traduz-se mesmo nas noites quentes, que permitem estar na rua até às tantas a filosofar com os amigos e um copo de vinho.

Numa dessas noites tive a visita do Diógenes de Sínope. Uma figura controversa na aldeia (e fora dela, diga-se de passagem). É conhecido por andar pelas ruas da aldeia, em pleno dia, com uma lanterna acesa, à procura da humanidade. É ireverente e conhecido por viver numa ânfora de barro e de ter consigo um ou dois pertences. Há quem diga que ele, simplesmente, não tem vergonha na cara. Para mim, é um verdadeiro provocador. As suas provocações têm como fim último levar-nos a colocar em causa aquilo que tomamos como dado adquirido.

Boa noite, Diógenes, senta-te e toma um refresco, disse-lhe quando o vi aproximar-se da minha rua. Vinha acompanhado de Crates, o seu discípulo a quem chamávamos de Abre-Portas; tal “alcunha” devia-se ao facto de ter o hábito de entrar pelas casas adentro, sem tocar à campaínha, para partilhar as suas frases. Quando vejo o Crates nas redondezas, deixo logo a porta encostada, para lhe poupar trabalho.

Diógenes, o que achas disto? Imagina que o mundo é dividido em dois grandes grupos: o grupo dos paralisados e o grupo dos precipitados. Os primeiros são aqueles que simplesmente não manifestam qualquer tipo de pensamento, que se fecham em conchas e erguem muros à sua volta. «Não incomodar», é a inscrição que eles têm à porta.

[Diógenes olhava para mim com um ar curioso, enquanto Crates se deliciava com uma bebida fresca]

Já os precipitados têm sempre qualquer coisa a dizer sobre o que quer que seja. Parecem aqueles meninos e meninas na sala de aula que, ainda nós estamos a começar a pergunta, já têm o braço no ar para responder. Queria tentar perceber se era possível encontrar pessoas que fossem uma espécie de caminho do meio entre os paralisados e os precipitados.

Não sou a pessoa indicada para te ajudar, Joana, bem sabes como ando por aí fora em busca de homens e só encontro desperdícios, desabafou Diógenes. Não me contento com respostas do tipo talvez, depende, assim assim ou mais ou menos. Acho mesmo que a vida fica muito complicada quando há hesitações e cinzentos entre o preto e branco. Dificulta-nos a vida e faz-nos pensar em demasia.

A conversa continuou, assumindo um registo de humor tão característico de Diógenes. Quando se acabou o refresco, acabou-se a conversa. Não quero ficar com sede, por isso volto amanhã para conversar, disse-me Diógenes. Encolhi os ombros e disse até amanhã. Ele e Crates seguiram, em silêncio, pela rua fora. Arrumei a mesa que tinha no quintal e troquei a conversa por um livro.

Há uma história curiosa sobre Diógenes: uma vez, ele ia a entrar no teatro, já a peça estava no final. Cruzou-se, assim, com as pessoas que iam a sair. Alguém lhe perguntou Diógenes, porque entras em contracorrente?. E Diógenes respondeu de forma simples, Ora, para que todos possam compreender o que fiz durante toda a minha vida.

 

tease diogenes 11 julho.jpg

 

crónica originalmente publicada na revista online Papel

 

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

@ creative mornings lx

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D