a aventura de filosofar com crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 5 anos tem o seu quê de desafiante. temos de desconstruir e de simplificar o nosso pensamento. e não se trata de "descer ao nível das crianças", pois não há aqui uma hierarquia ou niveis propriamente ditos. sim, é verdade que eu sou adulta e tenho mais experiência de vida e não me vou infantilizar durante as oficinas. o que me é pedido enquanto facilitadora de filosofia para crianças, nestas idades, é ir ao encontro do olhar da criança, de forma despojada e livre de preconceitos. estamos ali para ouvir e para ver o mundo tal como as crianças o dizem ou pintam.
ora fazemos perguntas fáceis, ora fazemos perguntas difíceis.
é importante que neste processo não tenhamos pressa e possamos praticar a escuta face ao que os outros dizem e pensar, em conjunto.
para acompanhar o trabalho no jardim de infância 2018/2019:
nem sempre o que planeamos para a oficina de filosofia acontece durante a mesma. o motivo? dou prioridade aos interesses do grupo, às suas perguntas, às situações que apontam e que podem vir a ser tratadas filosoficamente. nada como praticar o "vamos ver onde é que isto nos leva".
na semana passada, na sala dos 3/4 anos e entre alguma agitação típica das crianças que tinham vivido dias agitados e carnavalescos, eis que surgiu um dedo no ar acompanhado de uma cara muito interrogativa. o A. disse:
"tenho uma pergunta".
ah sim? então conta lá.
"e se calhar é uma pergunta um bocadinho difícil. porque é que isto se chama filosofia?"
e por que é que achas que a pergunta é difícil?
"joana, acho que vai ser difícil para tu responderes"
e antes mesmo de abrir a provocação ao grupo, o pequeno A. fez uma viagem no tempo às primeiras oficinas de sempre e contou o que tínhamos feito no primeiro dia. o que fizemos depois disso e como chegámos até aqui. com a minha ajuda e de outros amigos, fizemos o percurso até chegar aqui, como se estivessemos a contar uma história.
falámos de perguntas e de dizer coisas: e assim começámos a investigar a diferença entre perguntar e dizer uma coisa.
[sala dos 4/5 anos]
quando entrei na sala do reino da fantasia já a criançada estava sentada em círculo, à minha espera. resolvi abandonar o que tinha pensado trabalhar, pois lembrei-me de pedir ajuda a este grupo para investigar a pergunta do A.
eis algumas razões para "isto" se chamar filosofia:
tu [ou seja, eu] fazes muitas perguntas
ajudas a pensar [referindo-se a mim]
nós também fazemos perguntas
nós aprendemos coisas
tu escreves o que nós dizemos e depois podemos ver o que aprendemos contigo
depois de avançarmos no diálogo, no sentido de explorar as perguntas e o perguntar, ficámos com esta investigação para dar continuidade:
"há alguma coisa de especial nas perguntas da filosofia?"
para acompanhar o trabalho no jardim de infância 2018/2019:
Conheci a Sandra e a Elsa através da Pós-Graduação da Universidade dos Açores. Trabalham na Escola Portugueesa de Macau (EPM), onde dinamizam oficinas de filosofia junto das crianças e adolescentes.
Lembram-se da primeira vez que ouviste falar de filosofia para crianças?
Sandra: Sim, lembro-me como se fosse hoje. Ouvi falar pela primeira vez de Fpc em 2007, quando terminei o curso de Filosofia. Na época a área ainda era pouco conhecida e poucas escolas sabiam da sua existência. Fiquei muito curiosa, tentei saber mais sobre os seus percursores e fundamentos e achei que seria um desafio para o futuro.
Elsa: A primeira vez que ouvi falar de FpC foi através da Sandra, que já dinamizava um Clube de Filosofia juntamente com um dos nossos colegas. Interessei-me pelo projeto, pois as ferramentas de pensamento que desenvolviam eram precisamente aquelas que faltavam na generalidade dos alunos. A partir daí foi um caminho em conjunto: fizemos a Pós-Graduação em 2014/15 e, nesse mesmo ano, iniciámos a prática regular e alargada de FpC na Escola Portuguesa...até hoje!
Como é que começaram a trabalhar nesta área?
O Projeto de Fpc foi está implementado na Escola Portuguesa de Macau desde o início do ano letivo de 2013/2014. O Projeto foi muito bem recebido no seio da comunidade escolar, quer pelos professores, encarregados de educação, quer pelos alunos. A adesão tem sido muito significativa, temos crescido e trabalhamos com turmas do 1º ao 9º ano. Já se realizaram várias atividades bastante enriquecedoras, que revelam que os objetivos traçados para o Projeto estão a ser cumpridos.
Consideram que a fpc é necessária para as crianças? Porquê?
Sim, defendemos a ideia de que a Fpc é muito necessária e deve ser iniciada o mais cedo possível. A atividade do filosofar ajuda a manter vivas nas crianças e jovens a curiosidade, a disposição para investigação em conjunto e permite o desenvolvimento competências de raciocínio, comunicação, socialização e desenvolvimento do espírito crítico. Através do diálogo entre alunos, da realização de debates e de trabalhos em conjunto, a Fpc procura fomentar nos alunos a sua curiosidade natural, a capacidade de verbalizar aquilo que pensam, a sua cooperação na resolução de problemas, a respeitar a diferença sob a égide de valores morais e éticos humanos fundamentais para a felicidade, responsabilidade e liberdade individual e coletiva.
O acompanhamento deste projeto tem permitido observar que o contexto multicultural da Escola Portuguesa de Macau tem atuado como um estímulo ao desenvolvimento da linguagem, pois os participantes necessitam de enunciar, exemplificar, clarificar, definir, justificar aquilo que consideram significativo. Numa escola com estas características, a procura de significado em comunidade de investigação filosófica estimula, também, a construção do pensamento criativo através de analogias e o desenvolvimento da (contra)exemplificação. A prática do diálogo, da descoberta de conexões entre conceitos e da sua verificação através de critérios lógicos tem encorajado o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo.
Hoje em dia as crianças, em Portugal, têm muitas actividades na escola e depois da escola. Por que havemos de levar a filosofia para as escolas?
Pelas razões mencionadas acima.
A Fpc é um espaço que permite às crianças e jovens o confronto com a diferença, a descoberta da riqueza da pluralidade, a aprendizagem de como lidar com a conflitualidade e de como fazer escolhas responsáveis e consequentes no exercício da liberdade individual.
O que faz com que uma pergunta seja uma questão filosófica – do ponto de vista da fpc?
Uma pergunta que nasça do espanto, aberta à reflexão, que permita o diálogo, a investigação e a descoberta em conjunto.
Quais são os maiores desafios que a Fpc enfrenta, nos nossos dias?
Estimular a curiosidade, o diálogo dentro e fora das salas de aula e combater a conformidade, o desinteresse e a ideia de que a Filosofia não tem utilidade.
Podem dar alguns conselhos aos professores e aos pais para os ajudar a lidar com as perguntas das crianças?
Os conselhos que damos são nunca ignorar uma pergunta de uma criança, saber ouvi-la com muita atenção, dar espaço ao diálogo, quer em casa quer fora de casa e fomentar o espanto, a curiosidade e o diálogo na criança.
Alguma vez foram surpreendidas com uma pergunta de uma criança? Podem partilhar connosco que pergunta foi essa?
Sempre que participamos em sessões de filosofia para crianças surgem perguntas que nos surpreendem, seja pela profundidade que revelam, seja por quem as coloca, seja ainda pela forma como estimulam o diálogo. Estes são alguns exemplos:
- O que é que as pessoas pensam do mundo?
- Será que sonhar é pensar?
- Há regras para pensar?
- Justiça quer dizer igualdade?
- O que significa admiração?
- Qual a relação entre a raça humana e o egoísmo?
- A minha sabedoria é o teu orgulho?
- Porque temos medo de coisas de que os outros não têm?
Mas também há analogias admiráveis:
- Se eu fosse um livro, seria sempre um livro incompleto, porque começamos sempre com ideias diferentes daquelas com que terminamos.
- Se não houvesse liberdade, eras como um puzzle diferente dos outros: faltava-te a peça mais importante.
This is Dalia's point of view on Philosophy for Children, at Saudi Arabia.
Can you recall the first time you heard about philosophy for children (p4c)?
It was in 2008 when I was doing my masters in Cardiff university UK. I was interested academically in developing moral reasoning with children and this took me in a journey where I reached philosophy for children as a mean to achieve my academic goal.
How did you started working with p4c?
I came back to Saudi Arabia 2010 with my level 1 certification from SAPERE, I started to gather a small group of children to do the sessions. It wasn’t easy, philosophy is not a popular topic in my country and its banned in schools so I could not call my sessions : P4C, I choose different names to call my sessions anything from wisdom to critical thinking as long as I don’t say “philosophy”. I started by gaining trust in the community, experience and competence came consequently and now, in 2019 the country is ready to accept new ideas and philosophy is on the table again after centuries of banning
Do you think p4c is necessary to children? Why?
Yes I do, first of all, I saw it work with my children, having adopted the p4c approach at home, it contributed hugely in there holistic wellbeing, I am biased but yes I think P4c is a right to every child.
Nowadays children ( @ Portugal) have a lot of activities at school and after school. Why should we take philosophy to schools?
I think its essential for the education systems to adopt the idea of P4c . it doesn’t just make children think, but it also adds to teaching and to the school environment in general a sense of community and meaningful growth
P4C prompts the orientation towards education revolving around the needs of the student more than the academic goals of the teacher. It improves the quality of social communication skills and teamwork and most of all, it prompts values, moral reasoning and individual responsibility.
What makes a question a philosophical question – from a p4c point of view?
A good philosophical question is the one that creates tension, a collision between concepts or maybe a sense of contradictory
This power of contestability within the question makes it irresistible to think about and to engage in.
What’s the biggest challenge p4c faces, nowadays?
I can speak of my country and we have several challenges:
The bad reputation of philosophy
The challenge of traditional content driven pedagogies
And the dual hierarchal relationship between the teacher and the learner
Can you give the teachers and the parents some kid of advice to help them deal with the children’s questions?
Just say with all your attention and respect : hmm that’s a great question, I never thought about it before, what do you think?
Did the children ever surprised you with a question? Can you share that question with us?
I have a bank of over 700 questions and I cherish them all. I like so many of them but take this one for example:
ontem foi o "último dia" de aulas da Pós-Graduação em Filosofia para Crianças e Jovens, na Universidade Católica Portuguesa.
foi uma manhã intensa, de prática, de "trabalhos de pensar". avaliámos o percurso feito até aqui, com um cunho crítico, pois há muito a fazer. temos planos, temos objectivos e vamos arregaçar as mangas para continuar a levar a filosofia às crianças e aos jovens.
este "último dia" é o começo de tantos outros dias para darmos continuidade a esta prática, a esta investigação.
seguimos caminho, com objectivos planeados em grupo, pois somos team pensamento colaborativo.
já disse que foi um privilégio partilhar este caminho na companhia deste grupo de alunos? foi mesmo!
a próxima edição da PG já está agendada para Outubro e as inscrições estão abertas.
podem informar-se através do e-mail epgfa@ucp.pt ou telefone: (+351) 217 214 060
Oscar Brenifier, holds a Bachelor of biology degree (University of Ottawa) and a PhD in Philosophy (Paris IV – Sorbonne). For many years, in France as well as in the rest of the world, he has been working on the concept of ‘philosophical practice’, both from a theoretical and practical viewpoint. He is one of the main promoters of the project of philosophy in the city, organizing philosophy workshops for children and adults and philosophy cafés, working as a philosophy consultant, etc. He has published about fifty books in this domain, including the ‘Philozenfants’ series (Editions Nathan), which has been translated into over thirty-five languages. He founded the Institut de Pratiques Philosophiques (Institute of philosophical practice), to train practical philosophers and organize philosophy workshops in various places: schools, old people’s homes, prisons, social centers,organizations, etc. He is one of the authors of the UNESCO report: “Philosophy, a school of freedom”.
Can you recall the first time you heard about philosophy for children (p4c)?
I vaguely remember: I was still young at the time. It was when I proposed to an elementary school to hold a philosophy workshop with the children . Until then I was primarily doing workshop with adults. But when later on I heard the coined expression “P4C”, I noticed it often had little to do with philosophy.
How did you started working with p4c?
In a regular way, it was when my eldest daughter entered kindergarten. I proposed to the director of the school to hold regular workshops with different classes of children, aged between 3 and 5. I then made different experiments, invented diverse exercises, to make the children think.
Do you think p4c is necessary to children? Why?
No, it is not necessary. No more than art or gymnastics is necessary. Most people live without exercising their body or their mind, and manage quite well to survive. But of course, one might criticize the fact that they are missing on something important.
Nowadays children ( @ Portugal) have a lot of activities at school and after school. Why should we take philosophy to schools?
I don’t think we should. There is no foundation for such an obligation. But the good thing about philosophy is precisely that it is a non-activity, in the middle of all these activities.
What makes a question a philosophical question – from a p4c point of view?
Strange presupposition. It implies that there is a specific “p4c point of view”. I did not know. In a more general way, I don’t think there is such a thing as “philosophical questions”, but there are philosophical ways to deal with a question. For example, multiplicity of answers, guidance of reason, argumentation, problematization, etc. In this sense, all questions can be philosophical.
What’s the biggest challenge p4c faces, nowadays?
To do philosophy, instead of holding cute discussions, going beyond a mere exchange of feelings and opinions. Learning to listen attentively, to analyse, to question rigorously, etc.
Can you give the teachers and the parents some kid of advice to help them deal with the children’s questions?
Do not answer the questions of children, unless they first propose themselves an initial hypothesis, or different ones. Teach them to be autonomous, instead of mere consumers.
Did the children ever surprised you with a question? Can you share that question with us?
Yes. “Can I go out to the toilet?”. I was surprised, because I naively forgot how much human beings connect to their body more than to their mind.
pensar exige um esforço deliberado, obriga-nos a olhar para coisas que não são agradáveis e que nos deixam inseguros. o trabalho do pensamento crítico passa por parar para pensar e observar cada passo que damos.
o treino que os seminários do Oscar Brenifier proporcionam é, para mim, essencial para o desenvolvimento do meu trabalho enquanto facilitadora (ou dificultadora) de oficinas de filosofia (para crianças e jovens e até para adultos).
descubro sempre coisas novas. redescubro coisas que vou esquecendo pois a espuma dos dias é espumosa demais e é fácil praticar o "go with the flow". é difícil tomar conta da nossa vida. contrariar isso exige consciência, exige prestar atenção, tratar de uma coisa de cada vez.
o hipópotamo, um ser autêntico. e praticante da simplicidade: tenho fome, como. tenho sede, bebo água. sem "mas", sem "depende", sem "agora não". sem "neste caso, não". para o hipópotamo há o aqui e agora.
parar para pensar no próprio pensamento é um trabalho de autenticidade, de pessoas se permitem ser hipópotamos.
(sobre)vivi a mais dois dias de seminário de pensamento crítico: dois dias intensos, turbulentos e divertidos. o facto de os ter partilhado com pessoas que estimo e com quem tenho a possibilidade de partilhar as "dores" (e as alegrias) do pensar mais profundamente - isso foi a cereja no topo do bolo.
(fotografia da Elsa Cerqueira, partilhada no facebook. da esquerda para a direita: eu, Alice Santos e Oscar Brenifier)
o Márcio convidou-me para conversarmos no podcast SOBRETUDO. o tema? filosofia, pois claro. eu aceitei e durante quase 2h falámos de novas práticas filosóficas, de Platão, de Sócrates, dos primeiros filósofos, da história da filosofia e da filosofia que se leva à praça pública.
viajei até às crónicas MORA NA FILOSOFIA e recordei os meus tempos de estudante na licenciatura de filosofia, onde tive professores desafiantes e que marcaram o meu percurso académico, pessoal e profissional. enquanto falava com o Márcio, olhava para os dossiers e os livros aqui do escritório e dava-me conta como tenho uma péssima memória para arrumar os filósofos, cronologicamente.
a oficina do Platão está de volta a Telheiras. uma vez por mês, os pequenos-grandes-filósofos irão reunir-se para dialogar sobre as grandes questões da humanidade. e sobre as pequenas, também, pois as questões não se medem aos palmos.
na oficina de dezembro retomámos o tema abordado em novembro e começámos a usar as ferramentas de diálogo que nos permitem anunciar previamente o que vamos fazer:
na sala dos 3/4 anos, os caçadores de sonhos continuam intrigados com aquilo que vemos quando olhamos para o espelho. recordámos as oficinas anteriores e investigámos, não com o espelho que eu levei, dentro de uma caixa, mas com os dois espelhos que existem na sala. o que vemos quando olhamos para o espelho?
quando olhamos para o espelho, as pessoas que lá aparecem existem mesmo ou não? existem mesmo? não existem? as opiniões dividiram-se.
e eu continuo a existir mesmo que não esteja a olhar para o espelho? sim? não?
"sim, porque tu agora não estás a olhar para o espelho e estás a falar"
"sim, porque nós estamos a ver-te"
quem diria que iríamos abordar questões metafísicas, assim, de um dia para o outro?
na sala dos 4/5 anos, os habitantes do reino da fantasia estiveram a arrumar ideias: literalmente. cada pessoa arrumou a sua ideia tonta ou ideia normal, procurando justificar o porquê de ser tonta e de ser normal. não é um trabalho fácil e por isso, como não temos pressa, vamos avançando devagarinho. procurar os critérios para dizer que uma ideia é tonta ou normal é um trabalho que exige tempo e que se reveja cada critério, conforme vamos avançando. para já, eis o que descobrimos acerca de um polvo:
- se o polvo for uma "ideia normal":
tem tentáculos
tem riscas no corpo
tem pernas
tem muitos braços
tem bolinhas que colam
tem boca e olhos
não tem cabelo
- se o polvo for uma "ideia tonta":
não tem pernas
só tem óculos
não tem olhos
podes pôr o nariz porque é uma ideia tonta
é careca
não tivemos tempo para avaliar estas ideias: vamos ocupar-nos disso na próxima oficina.
para acompanhar o trabalho no jardim de infância 2018/2019: