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O livro é antigo e habita há muito, muito tempo uma das estantes cá de casa. Chama-se Viagem a Portugal e foi escrito por José Saramago. Esteve esquecido durante algum tempo e confesso que foi a série documental exibida pela RTP, com Fábio Porchat, que me fez voltar a olhar para aquelas páginas.
O título do livro não omite o seu propósito: pretende-se viajar por Portugal, pelo Portugal continental, diga-se. Nessa viagem, ao chegar a Carvalhal de Óbidos, o escritor português descreve uma torre, a torre dos Lafetás, uma família de pessoas bastante ricas com negócios em vários pontos do mundo:
Na torre que aqui está foi em tempos encontrada uma coleira com uns dizeres gravados, os quais assim rezavam: “Este preto he de Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos.” O viajante não sabe mais nada do escravo preto, a quem a coleira só deve ter sido tirada depois que morreu.
Saramago sublinha a desumanização deste objecto ao referir que nem sequer tem o nome da pessoa escravizada: “Como se sabe, um escravo não tem nome. Por isso, quando morre, não deixa nada. Só a coleira, que ficava pronta a servir a outro escravo.” (p. 169)
Nesta mesma página, o escritor indica que tem conhecimento de que essa coleira está em Lisboa, no Museu de Arqueologia e de Etnografia, assumindo o compromisso de visitar esse espaço para ver essa tal coleira. E assim acontece:
Cá está a coleira. (…) Este objecto, se é preciso dar-lhe um preço, vale milhões de contos, tanto como os Jerónimos aqui ao lado, a Torre de Belém, o palácio do presidente, os coches por junto e atacado, provavelmente toda a cidade de Lisboa. Esta coleira, é mesmo uma coleira, repare-se bem, andou no pescoço dum homem, chupou-lhe o suor, e talvez algum sanguel de chibata que devir ir ao lombo e errou o caminho. Agradece o viajante muito do seu coração a quem recolheu e não destruiu a prova de um grande crime.
Durante anos, a única referência a este objecto encontrava-se neste livro de Saramago. Havia visitantes que chegavam ao Museu e perguntavam pela coleira, indicando o livro como referência. O objecto esteve desaparecido e foi recentemente encontrado:
As duas coleiras usadas por escravos de proprietários portugueses continentais, peças raras que estiveram desaparecidas cerca de seis décadas e foram reencontradas recentemente, estão desde a tarde deste sábado expostas no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, no âmbito da exposição “Um Museu. Tantas Coleções!” (Expresso, 2017)
Estes objectos foram referidos na formação que frequentei na Gulbenkian, intitulada Histórias Difíceis, Legados Difíceis. Esta formação disponibilizada pela Fundação Calouste Gulbenkian aconteceu pelo segundo ano consecutivo e foi muito importante para mim frequentá-la. Espero que se continue no próximo ano e recomendo todas as pessoas que trabalham na área da educação a inscrever-se.
fotografia: Jornal Expresso