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filocriatividade | #filocri

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

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18 de Setembro, 2020

Clubes de Leitura (online)

joana rita sousa / filocriatividade

perguntaram-me se conhecia clubes de leitura online. saltou-me à ideia o clube que o PNL (Plano Nacional de Leitura) disponibiliza na rede social goodreads.

perguntei no twitter se alguém me poderia dar sugestões e aqui ficam os clubes recomendados:

- é desta que leio isto

- clube do livro digital - Helena Magalhães

- uma dúzia de livros - Rita da Nova

- Heróides, o clube do livro feminista

 

em Fevereiro e em Abril de 2023 acontece o clube de leitura #LERePENSARcom em parceria com a Bertrand Livreiros (informações AQUI). 

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se tiver outras sugestões de clubes de leitura online (ou presenciais!), partilhe nos comentários!

 

(artigo inicialmente escrito a 18 de Setembro de 2020 e revisto a 19 de Fevereiro de 2023)

16 de Setembro, 2020

#RodaDaFilosofia - 25 de Setembro

- às 17h (Brasil) / às 21h (Lisboa, Portugal)

joana rita sousa / filocriatividade

 

Uma Roda para pensar com os outros
 
​Trata-se de um iniciativa das professoras Elisa Oliveira (Brasil) e Joana Rita Sousa (Portugal) e que visa promover encontros "à roda" da Filosofia.
 
O primeiro encontro teve lugar no dia 4 de Setembro e contou com participantes de Portugal, Brasil e São Tomé e Príncipe. O tema do diálogo foi "a inutilidade da filosofia". 
 
 
 
25 de Setembro: o papel da filosofia na era da desinformação
 
O segundo encontro está agendado para sexta, dia 25 de Setembro, às 17h (hora do Brasil), 20h (Açores, Portugal), 21h (Lisboa, Portugal). Acontece via zoom e é necessária inscrição prévia, através deste link: ​ http://bit.ly/rodadafilosofia 
 
 
Eu e a professora Elisa teremos muito gosto em receber-vos na roda!
 

A #RodaDaFilosofia acontece via zoom, é de acesso gratuito e tem a duração prevista de 1h30.

 

 

15 de Setembro, 2020

sugestão de exercício para uma oficina de filosofia (online)

joana rita sousa / filocriatividade

 

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GET UP!

 

eis um exercício simples que podemos colocar em curso numa oficina online - com crianças, jovens ou adultos.

uma vez que a maioria das pessoas acede às oficinas online estando sentado, em frente ao computador, a ideia do exercício passa por colocar o corpo (e o pensamento) a mexer.

o desafio passa por 

1) escolher um conceito (pode ter sido escolhido previamente pelo facilitador da oficina);

2) pedir aos participantes que se levantem e se dirijam à divisão da casa mais próxima do lugar onde estão para escolher um objecto que tenha alguma relação com o conceito escolhido. o facilitador deverá indicar o tempo disponível para esta tarefa (por exemplo, um minuto). 

3) no regresso, os participantes devem apresentar o objecto ao grupo e justificar a sua relação com o conceito.

 

nesta fase várias coisas podem acontecer: podemos ter objectos diferentes justificados com a mesma razão; podemos ter objectos iguais e razões diferentes para a escolha. este pode ser um caminho para o momento seguinte do diálogo: a apreciação das razões.

outra possibilidade passa por dividir o grupo em grupos mais pequenos e pedir que cada grupo apresente 2 perguntas sobre as razões apresentadas e a sua relação com o conceito (nesta fase, "esquecemos" o objecto e focamo-nos nas razões e no conceito).

 

por experiência recomendo o registo dos objectos e das razões num documento que possa ser partilhado entre os participantes (por exemplo, google drive).

 

o livro apresentado na fotografia, de David Shapiro,  tem várias propostas de exercícios, pensados para oficinas presenciais e que podem ser adaptados para o online. se precisar de ajuda neste processo, contacte-me!

 

12 de Setembro, 2020

Isto Não É Filosofia & Joana Rita Sousa

- perguntas e respostas em torno da filosofia moderna

joana rita sousa / filocriatividade

 

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o Vitor e a Evelyn disponibilizam, semana após semana, uma aula sobre história de filosofia, no seu canal youtube. o mote? Isto Não É Filosofia (INEF). se querem saber as razões para o nome deste projecto, (re)visitem a conversa que tive com o Vítor, ali mesmo na IGTV.

depois da aula, que acontece às sextas, há perguntas e respostas "ao vivo e em directo", no instagram. foi com muito gosto que recebi o convite do INEF para fazer parte do ciclo de perguntas e respostas, aos sábados (17h Brasil, 21h Lisboa - Portugal).

estou a revisitar os dossiers e os apontamentos de filosofia moderna, do tempo da licenciatura e a (re)descobrir uma época que não é a minha preferida (confesso). sou mais dos antigos (dos primeiros filósofos) e dos disruptivos (querido Nietzsche!) e por isso está a ser um desafio.

 

encontramo-nos no instagram?

hoje, dia 12 de Setembro, vamos falar da aula de ontem, que está disponível AQUI

siga a filocriatividade e o INEF. até logo!

 

 

 

 

10 de Setembro, 2020

Quem disse?

joana rita sousa / filocriatividade

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Quem disse? é, à primeira vista, uma pergunta rebelde, feita por alguém que procura questionar uma regra ou uma fala instituída por alguém. noutro contexto, é uma pergunta que faço algumas vezes no sentido de averiguar a origem ou a fonte de quem diz que ouviu X ou leu Y. 

o livro Quem disse? (de Caroline Arcari e Guilherme Lira, editado no Brasil pela Caqui) tem um enquadramento específico, o da educação sexual. podemos ler na ficha técnica que "os conteúdos estão alinhados à legislação brasileira que protege crianças e adolescentes." a editora Caqui pretende intervir na área da "educação sexual, dos feminismos, masculinidades positivas e alternativas, violência de género, educação não-machista, anti racismo e prevenção contra as violências sexuais."  este é um livro com uma intencionalidade de abrir o diálogo, de questionar ideias feitas sobre certos temas.

 

podemos levar este livro para uma oficina de filosofia para crianças?

sim, podemos. trata-se de um livro que toca nalguns dos pontos mais cristalizados da nossa sociedade, como o "quem disse, Lelê, que menino não brinca de ser pai de um bebê?"

e o azul, é uma cor só de meninos? e o rosa? e a cozinha é o lugar de quem? 

o livro aponta para um mundo que é azul, que é rosa e que é de todas as cores. abre possibilidades, abre espaço para pensar nos "quem disse?" desta vida, das regras, do "faz isto" e do "não faças aquilo" que interiorizamos e que não colocamos em causa.

trata-se de um livro que amplia para a diversidade e, se há uma mensagem que está presente no livro, é "não existe padrão". 

 

sugestão de trabalho a partir do livro "quem disse?"

como trabalhar este livro em sala? eis a minha sugestão, passo a passo:

- leitura partilhada do livro;

- no final da leitura dar algum tempo para pensar sobre o que ouvimos;

- perguntar às pessoas em sala se têm alguma pergunta ou se quem comentar alguma coisa do livro (este é um bom momento para treinar a diferença entre perguntar e dizer uma coisa);

- registar as perguntas e comentários de todos, num papel ou no quadro, para que todos possam ver (se estivermos em aula online, utilize um documento partilhado ou uma opção de power point em modo de edição);

- pergunta se alguém já tinha ouvido algumas das ideias presentes no livro; por exemplo, que os meninos não usam cabelo comprido. será que sabemos dizer quem disse isso? e qual será a razão para o dizer?

- seguindo este exemplo, podemos avançar para pensar qual é a diferença entre um menino de cabelo comprido e um menino de cabelo curto? o que diz o tamanho do cabelo? quem na sala gostaria de ter cabelo comprido? quem gostaria de ter cabelo curto?

 

esta proposta pretende criar espaço para pensar

1) o que pode levar a alguém a dizer (x ou y)

e 2) se isso que diz tem sentido e se é suportado por razões válidas. 

 

sobre a faixa etária e o trabalho em sala, com a educadora ou com o educador

sobre a faixa etária: note que na descrição da sugestão de trabalho escrevo "pessoas" e não crianças ou jovens. o motivo? este livro poderá ser apresentado a diferentes grupos etários. consigo pensar em grupos com 5 e 6 anos com os quais já trabalhei junto dos quais haveria interesse e pertinência em abordar esta temática. note-se que não chegamos para o grupo a dizer: vamos trabalhar um tema da educação sexual! simplesmente, abordamos o livro como qualquer outro. 

no caso do jardim de infância e do 1.º ciclo e assumindo o papel que normalmente desempenho (o de professora externa que visita a sala para fazer acontecer a filosofia) julgo que será pertinente a partilha prévia do livro com a educadora ou com o educador. às vezes também os adultos precisam questionar os quem disse, pois também os perpetuam, tantas vezes de modo inconsciente.

o trabalho em parceria com a educadora ou com o educador da sala é algo que estimo e que procuro praticar. o trabalho de reflexão filosófica conduz-nos a um olhar diferente sobre aquilo que vemos todos os dias e, de repente, podemos ter um menino a perguntar a razão pela qual a sua bata é azul e a da Catarina é rosa. e esta pergunta pode muito bem acontecer num momento que não é o da oficina de filosofia e daí ser tão importante o trabalho partilhado com a educadora ou com o educador. 

a meu ver, trabalhar temas como a educação sexual em sala, com crianças, jovens e adultos, tem toda a pertinência e exige preparação, integração e uma sensibilização junto de todos os agentes educativos. a escola não é aquilo que acontece da porta para dentro; a escola somos todos nós: educadores, pais, avós, tios, vizinhos.

se nas oficinas de filosofia abordamos o sentido da vida, também podemos falar do sentido que tem dizer que um menino não pode usar cabelo comprido.  

 

 

 

Quem disse? /  Carolina Arcari  e Guilherme Lira / Editora Caqui 

 

08 de Setembro, 2020

Da (in)Utilidade da Filosofia

- reflexão do Alves Jana, a propósito da #RodaDaFilosofia

joana rita sousa / filocriatividade

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Confesso: não consigo perceber a afirmação, hoje, da “inutilidade da filosofia”. Creio que, pelo menos um pouco, percebo o que os seus autores querem dizer. Por exemplo, que a filosofia não pode ser colocada ao mesmo nível das coisas instrumentalmente úteis, pois “vale por si mesma”, que a filosofia não pode ser confundida com a utilidades reduzidas ao seu valor económico-financeiro.

Numa perspectiva filosófica, pelo menos socrática, a questão devia ser iniciada pela definição do que se entende por útil e inútil. O significado de útil, segundo do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é «Que é necessário; que tem préstimo ou utilidade; proveitoso; vantajoso» e utilidade é, pela mesma fonte, «Qualidade de útil / Préstimo; vantagem; serventia / Pessoa ou objecto útil». Sendo assim, afirmar a inutilidade da filosofia implica negar que tenha qualquer préstimo, vantagem ou serventia, que traga qualquer proveito ou vantagem. Será mesmo verdade?
Contudo, também sabemos que uma das tarefas dos filósofos é revolucionar o significado das palavras.

Essa poderia ser uma alternativa à afirmação da inutilidade da filosofia.
Vale a pena sondar o que “faz” a afirmação da inutilidade da filosofia.
Em primeiro lugar, confirma os significados de que se quer afastar: útil é só e apenas o que tem valor económico ou instrumental, etc., não há alternativa a esse significado.
Depois, num mundo em que “útil” tem esse significado, que a tese confirma, afirmar que a filosofia é inútil é lançá-la no caixote do lixo desse mundo, é dar força àqueles que querem banir a filosofia dos centros de custos (agora com o acordo dos filósofos). Não me parece boa política, muito menos boa defesa do lugar da filosofia na cidade dos homens e mulheres. É importante não esquecer que o significado de um acto de comunicação não se estabelece na emissão, mas na recepção. Se eu afirmo a inutilidade da filosofia, muitos esfregarão as mãos de contentamento.
Além disso, resta saber se essa tese é validada na vida, isto é, se a inutilidade da filosofia é confirmada por aqueles que a praticam, que se encontram com ela, que alimentam as suas práticas intelectuais e de vida com a reflexão filosófica.


O que a vida nos mostra é que a tese da inutilidade da vida é sobretudo conveniente (e por isso defendida) por aqueles que a temem. A História mostra-nos: a filosofia enquanto prática é uma actividade perigosa.


Sócrates foi condenado à morte, Platão vendido duas vezes como escravo, Descartes teve de fugir, Espinosa viu-se banido pelos seus (e a lista pode continuar até hoje). Os regimes autoritários são muito cuidadosos contra a filosofia. Por causa da inutilidade da filosofia ou pela sua perigosidade? Mas, se é este o caso, então a filosofia tem préstimo, valor, serventia, utilidade... contra a qual eles se acautelam.


Sem medos: a filosofia serve para viver melhor, para compreender melhor aquilo que se faz (por exemplo ciência ou política), para esclarecer e redefinir valores e significados, para lutar contra o velho instaurando o novo... A filosofia (tal como a arte e a religião) cria o mundo: se um filósofo faz um trabalho profundo, o seu mundo – e o nosso – fica outro. E ainda: a grande actividade da filosofia é definir e recriar a gramática do pensamento. Foi isso que fizeram Tales de Mileto, Sócrates Platão e Aristóteles, Descartes, Hegel, Nietzsche, Ricoeur, entre muitos outros (ou todos?).


A ciência diz-nos como o mundo é; a filosofia (tal como a religião e a arte) diz-nos que mundo queremos. Há alguma coisa mais útil na vida que sabermos o que queremos? Tanto a nível individual como colectivo. Quando delegamos na ciência a definição do que deve ser, temos uma distopia – um mundo muito técnico e científico mas nada humano. A filosofia (tal como a religião e a arte) tem a tarefa de defender e recriar o humano. Que actividade tem maior utilidade? É claro que há muitos que não lhe reconhecem nenhuma utilidade, antes pelo contrário. E o que mais espanta é que os filósofos estejam alinhados com eles!...


O desafio é totalmente o inverso: afirmar a filosofia como da maior importância e utilidade (caso aqui os dois conceitos de modo consciente). Não tanto com argumentações: a filosofia é muito útil, bla, bla, bla... (Não por acaso, não é por esta via que se afirmam a religião e a arte.)
O valor, importância, utilidade da filosofia afirmam-se através da experiência vivida. Quem – pessoa ou comunidade – viu a sua vida transformada para melhor pela filosofia não precisa de argumentos que a defendam. A afirmação da inutilidade da filosofia é um último (?) acto daqueles que mataram a filosofia tornando-a inócua, inofensiva, inactiva (como um vírus), académica no pior dos sentidos. Sim, quem vai defender a utilidade desta filosofia? Só “serve” para obter um canudo e um emprego numa escola.


Qual é o lugar da filosofia na cidade dos homens e mulheres que somos? Como é que ela é aí vista pelos outros? («A filosofia é a ciência com a qual e sem a qual se fica tal e qual.» Onde é que eu já ouvi isto?)


Se há uma tarefa importante para a filosofia – e para os que praticam a filosofia – é uma presença activa e marcante, na vida das pessoas, na escola ou na empresa como organização, na cidade como comunidade de vida. É aí – justamente aí – que há um trabalho a fazer. Difícil, perigoso, esquecido, mas necessário. Necessário também quer dizer útil, digo eu.
Nada do que fica dito contradiz o papel fundamental de uma Academia a trabalhar de modo excelente, técnica e filosoficamente qualificada. Ela é, em última análise, a imprescindível guardiã do património filosófico da humanidade e a última instância de formação de filósofos capazes. (Sem qualquer sentido de desvalorização para os que praticam filosofia sem título académico em filosofia.)


A questão da utilidade da filosofia faz-me lembrar um episódio que se passou comigo. A professora de matemática a operar num curso de jornalismo pediu-me que a ajudasse a explicar aos seus alunos a utilidade que a matemática poderia ter para eles, pois eles rejeitavam a matemática porque, diziam, “não servia para nada”. A ignorância e a lei do menor esforço davam ali melhor serventia que o poder da matemática. Outro episódio, passado também comigo. Num país africano, os professores de Direito lamentavam-se pelo facto de os políticos do país não reconhecerem a importância (não diziam “utilidade”) do Direito. Antes pelo contrário, diziam eles. Não percebiam que esse “facto” era justamente a confirmação da importância do Direito. Eles, os políticos, queriam um país liberto das amarras do Direito para poderem fazer o que muito bem queriam: os sucessivos golpes de estado, as apropriações privadas dos recursos públicos, a exploração livre dos recursos naturais, os vários tráficos ilegais...
Quanto mais inútil, e ausente, for a filosofia, mais o mundo pode seguir o seu curso sem sobressaltos.

 

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Dos níveis do conhecimento


Um dia, não há muito tempo, li a afirmação por um pseudo-filósofo (digo eu) de que “Não é possível ensinar a pensar, porque todos nós já pensamos”. Parece brilhante, perece uma verdade evidente, mas não é verdade.


É verdade que todos nós respiramos, andamos, falamos... mas precisamos de aprender a respirar, a andar, a falar... se formos para o teatro, se quisermos desfilar na passerelle, se precisarmos de falar em público. E todos nós temos emoções, naturalmente, mas a inteligência emocional permite-nos viver as emoções de um modo melhor – melhor para si e melhor para os outros.
Todos nós pensamos, mas também todos nós precisamos de melhorar a forma de pensar. E alguns precisam de melhorar muito, porque, bem vistas as coisas, não pensam, apenas dizem coisas que andam por aí pensadas por outros. E, na maioria das vezes, quando falam começam por dizer “Na minha opinião muito pessoal...” e depois mostram que não pensam, apenas reproduzem falas normalmente indigentes.


A filosofia é, entre outras disciplinas, um caminho para melhorar o modo de pensar. Mais uma vez: foi isso que fizeram Tales de Mileto, Sócrates Platão e Aristóteles, Descartes, Hegel, Nietzsche, Ricoeur, entre muitos outros (ou todos?). Um dos grande trabalhos da filosofia é reformular a gramática do pensamento, ou seja, as regras a partir das quais pensamos.

 

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Também todos nós sabemos contar: um, dois, três, e muitos. Se eu entrar num restaurante e olhar para as mesas, é isso que de imediato vejo. (Alguns, os melhores, conseguem ir até cinco.) Se quiser saber quantos lugares tem uma mesa de dez, tenho de contá-los. A matemática ensina-nos a pensar as quantidades com mais poder de cálculo: chegamos a pensar em termos de infinito e a operar de modos muito sofisticados. Só um exemplo: quando é que foi possível operar com o cálculo infinitesimal? Quando é que Gödel nos ensinou que é inútil (sim: inútil) procurarmos um sistema auto-fundado? Quando é que fomos ensinados a pensar o caos físico-matemático? A generalidade das pessoas ainda tem muita dificuldade em pensar de modo estatístico e mais ainda em termos probabilísticos. Ou seja, a generalidade das pessoas ainda pensa... segundo uma gramática lógico-matemática anterior ao século XVII e XVIII.

- Mas isso pode ser factor de exclusão de muita gente! Quem é que define quem pensa melhor e pior?


Sim, pode ser factor de exclusão de muita gente. Tal como o foi a invenção da escrita. Ainda hoje há milhões de pessoas excluídas desse poder que é a literacia. (Ainda hoje há povos que só contam um, dois, três, e muitos.) Vamos recusar a escrita (e o cálculo)? Ou vamos dar às pessoas excluídas o poder da escrita (e o do cálculo)? E o da literacia digital, e emocional, e financeira...
Sim, a distinção entre pensar melhor e menos bem pode ser usada para excluir (“Quantos mais, melhor”, dirão alguns), dos privilégios do pensar com mais poder. Porque pensar melhor é pensar com maior poder de resolução dos problemas que se enfrentam através do pensamento. Mas tal distinção também pode ser feita para ajudar a pensar melhor todos aqueles que pensam. Esse é o desafio, digo eu.


Porque a questão não é “tu pensas mal, só pensarás bem quando pensares como eu”, mas “tu podes pensar melhor amanhã do que pensas hoje” e “colectivamente, precisamos de pensar melhor os problemas que precisamos de resolver ou pelo menos minorar”. Um exemplo: muitos inocentes têm sido injustiçados, por vezes com a pena capital, por os juízes não pensarem com a qualidade a que estão obrigados. Só um outro exemplo: muitas crianças e jovens, sobretudo das classes mais desfavorecidas, é claro, têm sido humilhados e massacrados na escola porque os professores não pensam a sua actividade como deviam.

O pensamento, feito acção, faz o mundo que vivemos. O pensamento natural, herdado biologicamente, dá- nos um mundo próximo dos outros primatas superiores. Um mundo humano precisa de um “programa” superior capaz de gerar o que a biologia não nos dá. Um mundo mais humano precisa de um programa melhor capaz de gerar um mundo melhor. São a religião, a arte e a filosofia que moldam o pensamento e a acção de modo a darem forma ao mundo. O mundo humano não nasce de geração espontânea, nem por mero resultado da genética.
Os vários mundos não se equivalem. Os vários pensamentos não se equivalem.
Parece-me um problemático sintoma do nosso tempo a incapacidade de distinguir e afirmar diferentes valores para pensamentos diferentes.


Por exemplo. “O homem é superior à mulher”, “a mulher é superior ao homem” e “o homem e a mulher são iguais” (em dignidade e direitos) são afirmações equivalentes do ponto de vista formal, mas com elas produzem-se mundos muito diferentes.
Racismo, xenofobia, machismo, a escravatura, economicismo são formas sociais e políticas configuradas a partir de pensamentos diferentes. Uma sociedade que exclui os deficientes não se equivale a outra que os inclui. Era uma vez «uma aldeia em que as crianças que nasciam cegas eram levadas para o mato e abandonadas»: não é ficção, é uma realidade sociocultural concreta povos que têm nome. A proposta de que os deficientes, os homossexuais, ah, e os judeus deviam ser eliminados fez história, e ainda não desistiu de fazê-la. A proposta de que os doentes de Alzhaimer não têm direito a viver pelo que custam à comunidade em recurso é defendida por uma filósofa moralista do Norte da Europa. Nesta pandemia em curso, houve países que abandonaram os infectados ou alguns tipos de infectados, como os idosos, à morte, por desnecessários. E não há dúvida de que esta pandemia tem sido muito útil – sim, útil – para “limpar” a sociedade de uma parte significativa da “escória” que a contamina: velhos, pobres, doentes...


Um pensamento que não consegue perceber e afirmar a diferença de valor de diferentes pensamentos... desistiu de pensar, ou pensa mal. Digo eu, é claro. Como seria um pensamento matemático que não é capaz de afirmar a diferença entre uma conta certa e uma errada? Ou uma formação médica incapaz de distinguir um diagnóstico errado de um certo, ou...


- Bem, mas isso tem a ver com factos.


E diferentes pensamentos também têm a ver com factos: os factos que geram, o mundo que produzem. E não é necessário lembrar que até os factos hoje perderam valor: factos e invenções, verdade e mentira equivalem-se em vários tipos de pensamento. E, curiosamente, de arte: abundam os livros em que factos históricos e ficção convivem em harmonia estética. Até a ciência, hoje, equivale a tudo e vale nada.

Enquanto escrevo, a rádio da minha terra, onde colaboro como voluntário, transmite um programa que nos dá a ouvir os álbuns mais vendidos na década de 80. E ouço, dos Pink Floyd:

“We don't need no education /

We don't need no thought control /

(...) Hey, teachers, leave them kids alone”

(Em tradução livre: “Nós não precisamos de educação / Não precisamos de controlo do pensamento / Hei, profs., deixem os putos em paz”.)

Não sei se esta canção, que se nos entranhou na alma, é causa ou consequência ou sintoma ou tudo isto de um modo de estar no mundo, de fazer cidade, que... como tudo o que é humano, tem sombras e tem luzes, que importa distinguir.


É imprescindível afirmar que nem todos os pensamentos se equivalem. É até imprescindível levar isso mesmo às suas consequências: a exclusão de certos tipos de pensamentos – e de acções por eles gerados. Na sociedade geral, na empresa, na escola, na família. Sim, na família.
É de excluir um tipo de pensamento do pai que diz perante um filho homossexual “Preferia ver um filho morto que ter um filho maricas”. Ou o de uma avó que declara abertamente perante os netos que gosta mais de um que dos outros. E na escola “para todos”, que tipo de pensamento por parte dos professores deve ser excluído?


Vivemos um pensamento mole, incapaz de distinguir o que é distinto. No entanto, já Aristóteles nos tentou ensinar, há muito tempo, que nem todos os pensamentos se equivalem, tanto do ponto de vista lógico como do ponto de vista ético e político.


Tudo isto nasce, digo eu, da nossa indisponibilidade – filosófica e política (não há filosofia sem política) – para afirmar e distinguir diferentes valores do que, de facto, vale diferentemente. Por uma boa razão, mas operada de modo errado (digo eu).


A boa razão é que queremos incluir todas as pessoas. Pessoas! Mas acabamos por incluir todas as formas de pensar. Esquecendo que as várias formas de pensar se excluem lógica e automaticamente: a ditadura exclui a democracia; o supremacismo branco exclui a igualdade perante a lei; a igualdade entre homem e mulher exclui o machismo; a democracia exclui o racismo institucionalizado; os direitos humanos excluem o massacre a que os mais pobres têm sido sujeitos na escola ao longo dos tempos e dos países.
Excluir é fácil e é natural, humanamente natural, passe o erro lógico, pois nada do que é humano é natural. O que é difícil é incluir. E mais difícil ainda é excluir incluindo. Como?

 

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Bom, o racismo é de excluir, defendem muitos, mas não todos. A verdade, porém, é que tanto o racista, como a vítima do racista são vítimas de um sistema racista, colonial, etc. São ambos vítimas, mas não são vítimas simétricas, equivalentes. O racista é carrasco, o outro não é. Como é que somos capazes de combater o racismo, sem “matar” o racista? Como é que conseguimos libertar do racismo tanto a vítima do racismo como o racista? Ou libertar o filho homossexual e o pai que tem horror aos homossexuais?


Incluir de modo indiferenciado é incluir também o pensamento excludente, é dar-lhe direito de cidadania e oportunidade de se afirmar... e excluir quem e o que não lhe interessa. Este incluir acaba na exclusão de si mesmo e de muitos outros. É incluir sem diferenciar. Mas diferenciar também pode ser prepotência. Por isso é necessário que o pensar se mantenha permanentemente alerta.


Na filosofia, devemos (digo eu) defender a diferença de valores entre vários tipos e formas de pensar, mas sem excluir as pessoas que, pelo seu percurso e pelo seu contexto, pensam que todos os pensamentos ou formas de pensamento se equivalem. É possível excluir formas de pensamento sem excluir as pessoas que as pensam. E estas também trazem consigo alguma parte da verdade – conceito que hoje foi banido do pensamento, evidentemente com consequências.


O objectivo filosófico, neste campo, é cada um de nós, a começar por “mim”, sejamos capazes de viver segundo o mantra: ser capaz de pensar hoje melhor que ontem e amanhã melhor que hoje. E, tanto quanto possível, numa procura partilhada.
Como numa roda da filosofia. Não por acaso, uma roda da filosofia exclui a relação autoritária do mestre sobre o ignorante. Na roda da filosofia, todos são mestres e aprendizes. Todos valem o mesmo como pessoas. Mas, se têm algo a aprender, é porque...


Abrantes, 6 de Setembro de 2020
José Alves Jana

07 de Setembro, 2020

agenda #filocri - setembro 2020

joana rita sousa / filocriatividade

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14 de Setembro - Café Filosófico (online) - Bertrand Livreiros (18h30-20h) 


17 de Setembro - início da oficina A perguntar é que a gente se entende (online)


18 de Setembro - #FilosofiaAoVivo no instagram e no twitter, às 12h30, com o convidado Jean-Paul Sartre


28 de Setembro - Café Filosófico (online) - Bertrand Livreiros (18h30-20h) 



Em Outubro: curso Filosofia para Comunidades

05 de Setembro, 2020

como falar em círculo, no zoom

joana rita sousa / filocriatividade

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a Topsy trabalha em filosofia para crianças e, tal como eu e outros professores e educadores, teve de se ajustar às aulas (ou oficinas) online. uma das dificuldades que temos é em manter uma estrutura circular no diálogo, neste passar a vez para falar em roda que é tão habitual nas oficinas de filosofia.

no zoom, uma das plataformas que mais tenho usado, sabemos que o espaço que cada um de nós ocupa no écran do outro é diferente. isto dificulta a tarefa de saber quando é a minha vez de falar, bem como a gestão autónoma, por parte do grupo, dos momentos de fala.

uma solução possível é usar este esquema de círculo virtual (ver foto), que se pode construir de forma simples, num power point. a Topsy partilhou este recurso no seu blog, bem como um documento editável para podermos usar.

obrigada, Topsy!

thank you, Topsy!

04 de Setembro, 2020

Fórum Parar para pensar - na revista Dois Pontos

joana rita sousa / filocriatividade

já conhece a revista Dois Pontos?

se a resposta é "não" fica o convite para conhecer este projecto através da conversa que tive com a Ana, no instagram #filocriCONVIDA.

o tema da revista de verão é Comunidade - e é nesse contexto que eu e a Dois Pontos convidamos miúdos e graúdos  a pensar e a dialogar em torno da pergunta:

"Qual é a diferença entre um conhecido e um desconhecido?"

está aberto o fórum online (clique na imagem)! encontramo-nos por lá?

 

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03 de Setembro, 2020

Em busca da maravilha - Encontro-formação

- filosofia com crianças, com Walter Kohan

joana rita sousa / filocriatividade

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CCB  ▪  7 a 11 de Setembro  ▪  14h00 às 15h30 / 16h00 às 17h30 / 18h00 às 19h00

"Encontros-formação é um programa de formação nos campos da filosofia com crianças e literatura e ilustração, em regime online (síncrono e assíncrono) ou presencial, para artistas, educadores, professores, mediadores culturais, alunos de escolas superiores de educação, artes e filosofia, que reúne uma equipa de diferentes geografias."

 

Inscrições: fabricadasartes@ccb.pt 

 

consulte a página do evento, no website