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filocriatiVIDAde | filosofia e criatividade

oficinas de perguntas, para crianças / para pais e filhos | formação para professores e educadores (CCPFC) | #filocri | #filopenpal

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há dias assim

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em que eles chegam tão agitados que nem sequer reparam que eu já estou na sala, com a mochila pronta para começar os trabalhos. e falam uns com os outros. trocam de lugares e depois acusam-se uns aos outros de trocar de lugar sem pedir. e depois pedem e dizem "não é justo, a N. trocou". e eu tenho que dizer, "mas a N. não pediu e ainda não decidimos se podemos trocar ou não de lugar". 

e o certo é que ninguém ouve. 

levanto a voz. movimento-me pela sala. às vezes tenho que gritar - juro que só descobri que conseguia gritar quando fui dar aulas em regime de AEC. há grupos com os quais só isto resulta para chamar a atenção. mas eu prefiro silenciar-me e comunicar, de forma não verbal, que estou à espera que se acalmem para podermos começar os trabalhos.

continua a agitação. pedidos para ir ao wc - sim, eles chegam à minha aula após o intervalo de 30 minutos e só quando entram na sala é que a bexiga se enche - deve ser uma coisa que o pavlov poderá explicar, o que acham? 

lá começamos a trabalhar, recuperar o que foi feito na aula anterior para decidirmos o que vamos fazer. sim: autonomia e liberdade, em sala de aula. disse-lhes o que tinha pensado fazer com eles e coloquei a decisão ao grupo. inevitavelmente, ao retomarmos as pontas soltas da semana passada, demos início ao diálogo - às vezes não é preciso um estímulo (imagem, livro, jogo), basta o diálogo para que o... diálogo flua!

a agitação foi uma constante na sala. o L. estava até irritado com os amigos. o M. tinha o braço no ar e já estava cansado de esperar que os colegas fizessem o silêncio necessário para podermos ouvir-nos.

no final, conseguimos recolher algumas ideias interessantes. pelo meio tive que pedir à D. para que respeitasse o trabalho dos colegas, que estavam interessados na aula. a D. não estava nos seus dias, claramente. é habitual ser das alunas mais participativas e hoje amuou do princípio ao fim - acho que tudo começou a partir do momento em que lhe pedi que arrumasse o tablet na mochila. 

no final espreguiçamos. ficou o anúncio de que para a semana haverá um momento escrito para dar o pontapé de saída da aula. 

foi uma aula difícil, barulhenta, complicada de gerir. 

ufa. há dias assim. 

 

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"esse verbo não existe, pois não?"

- joana, esse verbo não existe, pois não?
- qual verbo? 
- o filosofar!
- ai não? vamos lá experimentar e conjugar...

 

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e é assim que se conjugam as aprendizagens do português com a filosofia, numa aula onde os alunos é que geriram o que queriam fazer 

 

autonomia, responsabilidade e tudo o mais, ali, em 60 minutos. e sim, ruído de fundo e todos a falar ao mesmo tempo. faz parte ;) 

 

 

ainda a conversa à volta dos cadernos da filosofia

o Tomás comentou o seguinte, numa partilha DESTE post, no facebook:

 

"Sim, Joana, as minhas aulas melhoraram imenso desde que os meus alunos começaram a usar o "Caderno da Filosofia" de forma livre e não apenas para registar ideias e palavras (apesar de muitos o usarem para isso mesmo, coleccionando perguntas atrás de perguntas, outros desenham, pintam, recortam, etc.


A maioria, quando questionados, sabem exactamente onde estão no diálogo, o que foi dito e por quem.
Quando isso não acontece (a alguns alunos acontece perderem-se nos seus desenhos e ficam alheados do diálogo) são convidados a, na próxima aula, fecharem o caderno e ver se "corre melhor".

A actividade física que referes é também um óptimo escape para alunos "mais activos" que, quando não o têm incomodam muito a aula a balançar nas cadeiras, a brincar com os lápis e etc. 
Quando têm uma actividade como o "desenhar as ideias que vão surgindo" acabam por se concentrar mais na tarefa do diálogo.

 

Muitos professores ainda resistem a deixar os seus alunos "rabiscar" nas suas aulas pois pensam que é sempre sinal de desatenção quando muitas vezes parece-me, pelo contrário, sinal de atenção.

Gostava de conhecer algum estudo empírico sobre este fenómeno.
Conheces?
abraço"

 

- relativamente a esta última pergunta, eu respondi que não, não conheço nenhum estudo sobre isto. e por isso pergunto aqui, se há alguém desse lado do écran que nos possa indicar algum estudo neste sentido.

 

obrigada! 

 

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Aristóteles? ora, assim seja!

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no final da aula, um dos alunos veio pedir se podia levar um TPP (trabalho para pensar). houve outros dois que se quiseram juntar a este pedido.
- hummm ora deixa cá ver que TPP é que vocês podem fazer...
e eis que a L. disse:
- já sei! vamos fazer um texto sobre o Aristoteles! 

(para a semana abandonamos o hospital das bonecas 📖 e começamos a ler a metafísica!)

 

1º ciclo, 4 º ano

"ó professora joana!"

(diálogo com uma aluno do 4º ano, no final da aula de filosofia)

 

-  ó professora joana, há alguma escola própria para a filosofia?

- como assim, J.? eu achava que esta onde estamos é uma escola própria para a filosofia...

- não é isso. uma escola onde só se vai lá para estudar filosofia!

- há sim. há faculdades onde podes ir estudar só a filosofia. eu andei numa.

- e nessa escola também fazem as coisas assim? se tiveres um teste, quem é que corrige? há respostas certas e erradas?

- bom, é um pouco diferente. no trabalho que nós estamos a fazer aqui eu não corrijo as vossas perguntas. decidimos todos. eu estou com atenção a ver a maneira como vocês pensam e dialogam uns com os outros.

- ahhh! é por isso que demoramos tanto tempo nas perguntas?

- sim, minha querida. é por isso. 

 

 

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os cadernos da #filosofia: um espaço para escolher e para a liberdade

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o Tomás Magalhães Carneiro foi das primeiras pessoas com quem me cruzei nestas lides da filosofia para crianças/filosofia aplicada. tem feito um trabalho extraordinário, que vou acompanhando através do seu blog e das redes sociais.

é comum eu enviar-lhe e-mails com dúvidas, com partilhas e com avisos: "Tomás, vou roubar-te esta ideia". 

assim aconteceu com os diários da filosofia (ou cadernos da filosofia), cujo recurso conheci no IV sentir pensamentos | pensar sentidos, que organizei com a Celeste Machado na universidade do minho, em 2014,

 

desde então, os meus alunos têm que ter um caderno, só para a filosofia. e há duas regras para o utilizar: a primeira, é escrever a data do dia das aulas. a segunda passa por "fazeres o que quiseres". como assim?, perguntam os meninos.

sim, podes fazer o que TU quiseres no teu caderno. desenhar, copiar o que se faz no quadro, copiar só uma parte ou registar a aula à tua maneira. - é esta a minha resposta. "então e posso não fazer nada?". sim, respondo, podes não fazer nada no caderno. tu és responsável por esse espaço que tens, podes mesmo fazer o que quiseres.

 

há uma estranheza perante tamanha liberdade. e um gosto, um prazer em escolher o que vão deixar registado no caderno.

 

além disso, o caderno cria rotinas no início e no fim da aula (alguém distribui, alguém recolhe). e torna, de certa forma "física" uma actividade que é abstracta e acontece no mundo dos pensamentos. 

 

 

afinal, isto de fazer as coisas livremente pode ser uma fonte de...

 

...problemas.

perante a regra de autogestão das idas ao wc, durante a aula, confrontámo-nos com um problema: a liberdade experimentada pelo grupo resulta numa confusão tremenda e até há meninos que se chateiam. como são livres para ir, sem pedir antecipadamente, querem ir todos ao mesmo tempo. 

 

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e a aula que estava planeada ficou dentro da mochila. é assim, a filosofia a acontecer. 

a comunidade de investigação a acontecer

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avançam para o quadro, para apresentar o trabalho: a M. e a D. - têm sugestões para resolver o "problema" com o qual ficámos em mãos numa das últimas aulas de dezembro.

partilham as suas ideias com o grupo, que escuta e se posiciona perante as ideias de cada uma das colegas. no meio do diálogo registo a utilização de "concordo", "não concordo", "podes ajudar-me a dizer porquê", "não sei se estou certa, mas o que acho é" - são pequenos sinais de que a comunidade de investigação está a acontecer e as regras do diálogo estão a tornar-se naturais.

no final da aula havia pequenos grupos a dialogar entre si, sobre as várias ideias apresentadas pelos colegas. a comunidade é um processo dinâmico e é muito bom ficar na última fila a ver isso a acontecer. 

 

"ó joana, não te sentas na mesa da professora, ali à frente?"

não, prefiro estar aqui ao pé de vocês. 

 

YEAH! 

 

 

"e para mim é a melhor pergunta que eu já vi"

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o desafio foi o de pensar a partir do livro A Contradição Humana, de Afonso Cruz. ouvimos o texto, vimos as ilustrações. e depois? depois fizemos perguntas.

e no momento a seguir, tivemos que escolher perguntas para trabalhar. e justificar a escolha.

nesse caminho, descobrimos que as perguntas importantes para alguns dos meninos justificavam-se com "é uma pergunta muito interessante", "quero saber o que os meus colegas pensam sobre isto" ou "eu quero mesmo saber por que é que aquilo acontece".

 

e ainda: "e para mim é a melhor pergunta que eu já vi" 

 

a investigação continua, na próxima aula. 

 

#filocri - 1º ciclo - 4º ano 

 

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